Um olhar sobre a minha nomeação como Governador Civil de Viseu, 20 anos depois

Vinte anos depois, olho para trás e fico com um travo bem doce desses tempos, do tempo em que fui governador civil do Distrito de Viseu, cuja posse teve lugar precisamente no dia 5 de abril de 2005.

Convidado por António Costa, alguns dias antes, lá me desloquei até ao Terreiro do Paço, onde fui empossado, com os demais dezassete governadores, que guardo na memória, ainda hoje, um a um.

No salão nobre do MAI, ante a presença de José Sócrates, primeiro-ministro, e de António Costa, ministro da Administração Interna, e dos secretários de estado deste ministério, assumimos as missões que nos foram confiadas, com especial enfoque, como nos foi referido, para o drama que anualmente, sem mês definido, assolava (e assola) o nosso país e, afinal, os países onde a temperatura, a humidade e o vento se conjugam tantas vezes com infandos efeitos.

Até agosto de 2009, foram mais de quatro anos de intensa atividade. De permanentes deslocações aos 24 concelhos e a quase todas as 372 freguesias, à época, do distrito de Viseu. 

Quantas vezes fui do Douro ao Mondego! Do Távora e do Varosa ao Vouga e ao Dão! Do Bestança e do Paiva ao Criz e ao Dinha! Da Nave ao Caramulo! Do Montemuro à Freita e à Arada!

Quantas veze fui a aniverários de associações de bombeiros! A exposições! Acompanhei deslocações de membros do governo! Fui aos teatros de operações quando os incêndios lavravam incontroláveis! Participei em operações de prevenção de acidentes de viação! Ajudei na articulação das diferentes forças de socorro e segurança. Na busca e salvamento. Mas também marquei presença em funerais de elementos da proteção civil que pereceram em combate.

Foram tempos de permanentes correrias para Lisboa, para os ministérios (todos), sobretudo para o MAI (de início com António Costa e depois com o ministro Rui Pereira) para reuniões de planeamento de diversas intervenções de índole governativa e de alertas e de apelos que sempre levava em carteira, com vista à resolução (nem sempre conseguida) de tantas outras urgências e emergências que iam surgindo no dia a dia por todo o distrito.

Como gostei de ajudar nas políticas sociais. Na construção de lares. De unidades de cuidados continuados. De escolas, de creches e de jardins de infância. Na implementação da escola a tempo inteiro. Das novas tecnologias. De unidades industriais. Na promoção da gastronomia. Dos vinhos. Das confrarias. Do território. Do artesanato. Dos saberes e dos sabores. Dos museus. Dos grupos de teatro. Mas também nas políticas ambientais, das energias renováveis (eólica e hídrica). Nas águas e na recuperação de passivos ambientais. Na defesa do consumidor. No apoio à edição de livros de que destaco "Distrito de Viseu - Tesouros de Arte e Arqueologia", do Jorge Adolfo e da Fátima Eusébio, este editado pelo Governo Civil.

Guardo tantos desses momentos. Guardo tantas dessas reuniões. Guardo tantas dessas discussões.

Mas guardo também as reuniões no salão nobre do Governo Civil de Viseu. Com os autarcas. Com todos os presidentes de Câmara. Com presidentes de junta. Com os comandantes e responsáveis da proteção civil distrital e nacional. Com os bombeiros. Com os comandantes da PSP, da GNR e do RIV. Com a PJ e o SIS. Com os titulares dos diversos serviços descentralizados da administração pública.

Retenho ainda algumas das inúmeras audiências aos dirigentes associativos e a tantos e tantos cidadãos anónimos. Para me apresentarem problemas e para me falarem de tudo. Daquilo que os preocupava e dos anseios que tinham para as suas terras e coletividades.

Mas guardo, igualmente, as dificuldades de gestão de alguma conflitualidade de natureza política. Que me chegava constantemente. De expectativas. Das mais diversas. De interesses, quantas vezes estranhos. De vontades e quereres, quantas vezes ilegítimos!

Sim, tudo isso me ocorre, neste dia, vinte anos volvidos sobre a minha tomada de posse como governador civil do Distrito de Viseu. 

Mas não se fica por aqui a memória. Revejo, com um especial gosto, todos os membros da minha equipa de apoio. Desde o chefe de gabinete, aos adjuntos, secretários e motoristas. Daqueles que comigo, mais diretamente, partilharam venturas e realizações, mas também as agruras de uma vida política, quantas vezes incompreendida e cruel. Revejo, de modo igual, com amizade e apreço, todos os trabalhadores que fui encontrar no Governo Civil. Uma família (deixem passar esta lamechice) com quem ainda hoje partilho uma boa amizade nos regulares encontros que, anualmente, vamos efetuando.

Falta uma palavra para uma pessoa. Para o José Junqueiro, por motivos políticos, óbvios, pois era o presidente da Federação Distrital de Viseu do Partido Socialista.

É bom recordar. Rever. Olhar o tempo e desfrutar da tranquilidade da minha consciência.

Nota: Ontem como hoje, entendo, não por nostalgia mas por pragmatismo político, já largamente evidenciado, que foi um erro a extinção, em 2011, dos Governos Civis, apesar de ainda existir de iure (art.º 291 da CRP) a figura do governador civil.

Acácio Pinto - 05.04.2025