Sabe como se ouviam as emissões proibidas de rádio antes do 25 de abril?

 


Sabe como se ouviam as emissões de rádio proibidas antes do 25 de abril.

Eram outros tempos. Tempos em que só podíamos ouvir as notícias que eram transmitidas pelas emissoras oficiais do regime de Salazar e Caetano.

Antes do 25 de Abril de 1974, ouvir a BBC, a Voz da Alemanha, a Rádio Voz da Liberdade, ou a Rádio Portugal Livre era crime político. Eram emissoras que emitiam em onda curta, dirigidas a Portugal, e que tinham a polícia política sempre no encalço de quem emitia e dos ouvintes. E estes, que tinham os ouvidos colados aos recetores, sabendo que a polícia estava sempre à espreita, colocavam um copo de água em cima do aparelho, pois dizia-se que com esse expediente a PIDE não detetaria as ondas da emissão.

Porém, a questão do copo de água era um mito. Os detetores com capacidade para determinar a direção das ondas eletromagnéticas (radiogoniómetros) não eram influenciados por tal expediente. Portanto, se muitos não foram apanhados quando sintonizavam nos seus aparelhos de rádio as ‘ondas curtas’ das tais emissoras clandestinas, com as notícias de Portugal e do Mundo sem o prévio corte dos censores, tal não se deveu à interferência da água, mas, quiçá, à incapacidade de a polícia atuar em todos os recantos do país.

Eu ainda fui daqueles que ouviu algumas dessas emissões num aparelho de rádio (ver foto) que o meu irmão sintonizava, numa operação sempre difícil, pois o aparelho não era dos melhores e, por vezes, a emissão quase se perdia, cheia de interferências. Era preciso encontrar o local certo da casa, direcionar a antena com exatidão e depois ir rodando o botão de pesquisa até se fixar na onda da emissão.

E assim lá vinham as notícias das mortes de soldados portugueses no ultramar que a EN (Emissora Nacional) escondia, lá vinham as informações do que se passava no mundo que a RCP (Rádio Clube Português) não dizia, ou as notícias do isolamento de Portugal que a RTP e não dava!

Hoje os tempos são outros, tudo se sabe ao minuto, mas os perigos da desinformação, esses, continuam aí e atuam em todos os quadrantes geográficos!

Acácio Pinto