Naquele tempo, o tempo ainda tinha o tempo todo. Tanto tinha
o tempo, no verão, para uma obrigatória sesta, bem dormida, como no inverno
para longas conversas à volta do cepo ou para sucessivos jogos de sueca na
taberna da aldeia à luz do gasómetro.
Era o tempo em que se esperava uma semana pela resposta da
namorada à carta cheia de cupidos que se lhe havia enviado. Era o tempo em que
as estradas ainda eram da JAE e para se chegar de Viseu a Lisboa, no Novo Mundo
ou no Coche da Beira, se demoravam umas boas 6 horas, com paragem ali prós
lados do Barracão para se comer uma bifana.
Era o tempo em que as estradas municipais se vestiam de
terra batida e as mais privilegiadas lá tinham direito a vestir macadame.
Sim, bem sei, era um tempo bem difícil!
Entretanto inventaram outro tempo. Um tempo bem acelerado em
que tudo tem que ser feito ao ritmo das bolsas de Tóquio ou de Frankfurt, de
Londres ou de Nova Iorque.
Inventaram este tempo em que os bancos emprestam e lavam
dinheiro ao ritmo de um ou dois a falir por cada orçamento de estado, que o
povo sempre paga! Um tempo em que os Madoffs
inventaram as engenharias financeiras que fazem com que os lucros se multipliquem,
geometricamente, todos os anos, nem que seja à base de toxinas.
Inventámos um tempo em que temos pelo menos 5.000 amigos de
todo o mundo e em que as respostas chegam, quase, ainda antes de serem
enviadas. Em que as SMS, o correio eletrónico, o facebook e o twitter fazem o
milagre do “isto é tão bom, não foi?”.
Inventámos este tempo em que tudo está feito. Em que o
amanhã é agora e o agora já passou. Um tempo em que nem precisamos do passado e
em que nos dizem que não vamos ter futuro. Reformas? Isso é só para os que já
as têm!
É o tempo das ideias pré-formatadas que
‘consumimos-na-maior’. Afinal, temos tudo no ecrã tátil do telemóvel ao ritmo
da polpa dos dedos. É um tempo em que nem precisamos de pensar. Bem sei que
agora não vamos ter o dominical Marcelo, mas continuaremos a ter todos os dias sempre
alguém que pensa por nós nos ecrãs cada vez mais pixelizados das televisões. Temos sempre comentadores de serviço
permanente, quais apóstolos deste novo tempo, que nos trazem a boa nova, para
nos salvarem da ignorância.
Mas, por favor, deixem-me continuar a utilizar o
‘inutensílio’ da poesia. Deixem-me fazer intervalos para pensamento e escrita.
Intervalos de liberdade. Deixem-me continuar a pensar e a pensar que o nosso
futuro tem muito a ver com essa capacidade de continuarmos a ousar e a decidir,
mas pela nossa cabeça.
* Expressão de Paulo
Leminski
Acácio Pinto