Aspetos do 5 de outubro em Ílhavo, no Estado Novo

 


Ílhavo sempre foi uma terra onde, durante o Estado Novo, os valores da liberdade e da democracia tiveram muitos apoiantes. Íntegros e inteiriços. Combatentes pela liberdade. Lutadores pela superior causa da dignidade das pessoas.

Vem isto a propósito do dia de hoje, em que se assinala a implantação da República, que ocorreu em 1910.

Durante os 48 anos do Estado Novo, os apoiantes de Salazar assinalavam este dia (eufemisticamente, diga-se), uma vez que tal data representava o dealbar do regime republicano e o mínimo era não o violentar. Já para os opositores, comemorar o 5 de outubro era em si mesmo um ideário de luta pelos valores que inspiraram os republicanos que tinham derrubado a monarquia: voto universal e livre, direitos sociais, alfabetização...

E, portanto, com este enquadramento, através da PIDE, o regime vigiava, com particular acuidade, todos aqueles que eram tidos como sendo do reviralho (comunistas e ditos republicanos), ou seja, os opositores do regime.

Assim sendo, através dos seus informadores, que estavam disseminados e infiltrados nas empresas, nas associações e em todos os recantos de Portugal, a vigilância sobre esses perigosos portugueses, que não eram patriotas, era apertada. E os relatórios para as instâncias distritais e nacionais da PIDE, nessa sequência, tinham dois momentos: um antes do dia, a dar nota dos preparativos e outro após o 5 de outubro a relatar o que se havia passado.

Ílhavo foi uma das vilas em que tal se passou. Todos os anos a polícia política recebia relatórios alusivos à data, em que eram detalhadas informações sobre cidadãos do concelho e da região de Aveiro. Alguns dessas pessoas acabaram por ter relevância regional e nacional, como fossem os congressos republicanos e mesmo depois do 25 de abril, ocupando funções cimeiras nas instituições democráticas.

Falo de quem? De quais pessoas?

De Mário Sacramento, de Carlos Candal, de Júlio Calisto, de Eduarda Senos, de Joaquim Rodrigues Silva, de Costa e Melo, de Joaquim e Álvaro Seiça Neves, de Manuel Fonseca, de Sizenando Ribeiro Cunha, de João Sarabando, de Joaquim Santana, de Manuel das Neves, Senos da Fonseca… e tantos, tantos outros.

Pois bem, os ficheiros da PIDE na Torre do Tombo têm relatórios rocambolescos de um infiltrado neste grupo que, durante mais de uma década, informou o seu inspetor superior sobre as iniciativas que este grupo levava a cabo em Ílhavo.

Deixo-vos esta transcrição, de um relatório de 6/10/1963:

«A data de 5 de outubro passou despercebida aqui na terra [Ílhavo] e em Aveiro. Só em S. João de Loure, em casa do Dr. Sizenando esta data foi comemorada. Ao dar da meia noite do dia 4 para o dia 5 foram lançados mais de 200 foguetes nas cores verde e vermelha.

Na quinta e em redor da casa havia iluminações também com lâmpadas verdes e vermelhas. No dia 5 à noite, em casa deste médico e para convidados, havia serviços de comidas e bebidas (permanente) e a Orquestra Aloma a abrilhantar a festa, tendo havido baile que se prolongou pela madrugada. Estavam muitos convidados de fora, estando presentes também muitos médicos, professores universitários de Coimbra, estudantes de ambos os sexos da Universidade e Liceus.

(…) No meio da mesa havia um bolo representando a bandeira portuguesa com cinquenta e três velas e flores a enfeitá-lo. Cá fora na quinta e para o povo estavam duas músicas a tocar e foi distribuído vinho. Consta que com esta festa o Dr. Sizenando devia ter gasto 30.000$00 e que para o ano tenciona fazer uma festa ainda maior. O senhor Governador Civil de manhã telefonou ao Dr. Sizenando dizendo-lhe que teria de pedir uma licença para poder fazer a festa, ao que respondeu que era uma festa particular para a qual não necessitava de autorização e se algum povo lá se juntasse a culpa não seria dele (…).»

Acácio Pinto, 5 de outubro de 2025

(Foto: Cópia do relatório do informador da PIDE, de Ílhavo)

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