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Sempre houve, ao longo dos tempos, guardiões dos saberes, das tradições, dos regulamentos, das teorias e de todas as ritualizações sociais. Eram os guardadores de toda a percuciência e só mesmo eles se achavam capacitados para afirmar qual o último e mais ínfimo pormenor de uma qualquer teoria, como por exemplo, sobre o tom do gorjeio das aves canoras.
Eram assim como que uma espécie de indivíduos ungidos pelos
óleos sagrados e ineptos eram todos os demais, todos quantos ousassem alvitrar
em dissenso.
Hoje, tal como ontem, em bicos de pés e ataviados de
soberba, continuam por aí aqueles que sobem aos púlpitos dos eventos, crescem
para as câmaras, e se pavoneiam ante microfones para perorarem augustas
palavras, as únicas, aliás, que são as fidelíssimas reproduções do pensamento
mais refinado daquele filósofo, escritor ou artista. Quais apóstolos de uma
religião que só eles sabem desvendar, que só eles têm erudição para desnudar
perante nós, há muito que eles conseguiram, mesmo, separar a sombra do seu ‘progenitor’
objeto e dar-lhe vida própria. São deuses e pronto.
“Calem-se, seus inscientes”, soliloquiam eles, com desprezo
e com desdém, ante a acareação de vozes disruptivas!
Aliás, não há no mundo nenhuma guerra, conflito, eleição,
decreto ou assunto, seja lá o que for, por mais complexo ou arcano que seja em
que eles não nos ofertem o milagroso soluto! Que não nos iluminem e digam qual
é o único caminho para a redenção!
Porém, hoje como ontem as inevitabilidades continuam e há
sempre um lugar livre para mais um, outro e aqueloutro: é que os cemitérios
nunca viraram nem viram as costas a ninguém!
Acácio Pinto, junho de 2023