Avançar para o conteúdo principal

D. Nuno Almeida citou Torga na sua homilia: “Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar”

 

Iniciou-se hoje na Catedral de Bragança o início do ministério de D. Nuno Almeida, como bispo da diocese de Bragança-Miranda.

Na homilia inicial, D. Nuno Almeida, natural do concelho de Sátão, das Pedrosas, perante uma mole que enchia a catedral, e ante a presença de muitas pessoas da sua terra, não deixou de citar “o escritor e poeta transmontano”, como ele lhe chamou, Miguel Torga, num poema cheio de fortes metáforas.

De seguida deixamos toda a sua homilia, que retirámos da página do Facebook da Diocese de Bragança-Miranda.

«Irmãs e irmãos!

1.Vindos de vários lugares, eis-nos aqui reunidos nesta nova, bela e solene Catedral da Diocese de Bragança-Miranda, guiados pelo Espírito que faz de muitos um só corpo.

Uma página do Evangelho maravilhosa e dramática aquela que acabámos de escutar! Num lago que é para a Galileia proporcional ao que é para nós a Albufeira do Azibo ou os Lagos do Sabor, levantou-se uma violenta tempestade, que encheu de água a pequena barca e de medo os discípulos, que lutam, aflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena e frágil embarcação no meio do mar encapelado (Mc 4,35-41).

Em significativo e sereno contraponto, narra o Evangelho que «Jesus, à popa, dormia deitado sobre uma almofada» (Mc 4,38). A popa, a traseira do barco, é o lugar de comando da embarcação.

Jesus permanece, portanto, no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem tenhamos consciência da força serena com que Ele nos guia.

A presença da almofada na pobre embarcação e do sono tranquilo de Jesus marcam bem o tom e o estilo bem diferente deste timoneiro da nossa vida agitada. Nós, que até confundimos muitas vezes renovação pastoral com aceleração pastoral. Mas não é a nossa agitação que conta. É essencial e decisiva a Sua presença de amor.

2.Muitas vezes cantamos ou recitamos, na Liturgia das Horas: «Se me colhe a tempestade, e Jesus vai a dormir na minha barca, nada temo porque a Paz está comigo»! É o Senhor que nos fala, forja, chama e ordena. Todos os caminhos vêm d’Ele e vão para Ele. Foi o Senhor que nos chamou e aqui nos reuniu e daqui nos enviará. Jesus Cristo é a nossa morada, a nossa mesa, vinho, pão, caminho, verdade e vida.

É ao Senhor que confio, nesta hora, o meu ministério de serviço episcopal a esta querida diocese de Bragança-Miranda. Ao Senhor peço que vele por nós, que seja Ele, em nós e no meio de nós, a orientar a nossa barca, mesmo que vá recostado tranquilamente à popa (Mc 4, 38): que a sua presença serena e amorosa dê sempre sentido e rumo ao nosso peregrinar juntos, sinodal, como povo de filhos e de irmãos!

3.A lição do Livro de Job, proclamada como Primeira Leitura (Job 38,1.8-11), responde a uma pergunta: em que Deus acreditamos? Deus absolutamente soberano, incontrolável, que não surge no limiar das nossas perguntas ou pedidos. É um Deus absolutamente livre, que irrompe do seio da tempestade, isto é, do seio da liberdade, como nas antigas teofanias. Não vem para responder às muitas perguntas de Job e às nossas. Vem, antes, para mostrar as maravilhas da criação, que nos rodeiam, e questionar-nos. Deus mostra o Penedo Durão e as uvas maduras, nas encostas do Douro; mostra neve sobre a Serra de Nogueira, sobre a Serra de Bornes, sobre a Serra de Montesinho; mostra a cor dos outeiros, o cheiro de castanhas assadas e do fumeiro em Vinhais, em Bragança; mostra amendoeiras em flor e oliveiras verdejantes nas encostas do Tua e do Sabor; mostra a doçura da fruta do Vale da Vilariça; mostra maçãs que crescem, em Carrazeda de Ansiães, mostra orvalho nas searas do planalto Mirandês… mostra um entardecer e naquele entardecer um rebanho, saciado e dócil, que escuta e segue a voz do seu Pastor. Mostra um Pastor, que ama o rebanho, – e como o ama! –  que chama pelo nome e conta cada uma das suas ovelhas, que assegura que nenhuma se tresmalha, que dá – por elas – a vida. Tudo tão belo. Deus convida-nos a ser sábios, a saber ver. É um Deus que convida a apaixonar-nos pela beleza da criação. É uma criação que convida a apaixonar-nos pelo Criador. O Deus das maravilhas, o impossível ao homem torna-se possível.

Deus faz passar diante de Job as páginas de um álbum repleto de maravilhas

impenetráveis. E Job fica fascinado, atónito, e reconhece que nada sabe, ou que

apenas sabe decifrar um ou outro fragmento deste mapa deslumbrante. Só pode,

tudo isto, ser obra do amor, daquele amor de Deus! Job acredita, eu acredito; Job sempre acreditou, nós sempre acreditamos.

4.Este pensamento sobre o amor de Deus é posto em relevo, na Segunda Leitura, da Segunda Carta aos Coríntios (2 Cor 5,14-17). A chave da vida de Paulo e da nossa é o amor de Cristo por nós, que deve suscitar, como resposta, o nosso amor por Cristo, de modo a vivermos, não já para nós mesmos, em clave egoísta, egocêntrica e autorreferencial, mas para Cristo que por nós morreu e ressuscitou. Somos assim novas criaturas, nascidas da graça, chamadas a dar graças e doar a nossa vida.

Na Última Ceia, Jesus antecipa, no corpo doado e no sangue derramado, a entrega máxima no amor para com o Pai e para connosco expressa no seu sacrifício na cruz. Deste momento e não de outro, como a transfiguração, os milagres…, Ele deixou-nos o memorial “Fazei isto em memória de mim” (Cf. 1 Cor 11, 24). Deixa na sua Igreja o memorial, presença daquele momento supremo de amor e dor sobre a cruz, que o Pai torna perene e glorioso com a ressurreição.

Eis o mistério admirável, maravilhoso da nossa fé: do Deus connosco, Deus para nós e Deus por nós! do Deus connosco, Deus para nós, Deus por nós, do Deus que é para nós Salvação. Jesus! Do coração de Cristo na Eucaristia flui a vida divina para todos os membros do corpo para que possam viver d’ Ele e servir sempre e bem.

São, pastoralmente prioritárias, as vias que conduzam pessoas, famílias e comunidades a viver unidas a partir da celebração do sacramento da Eucaristia, fonte de graça e força para uma vida espiritual autêntica.

5.Mais uma vez constatamos que as palavras do Evangelho são únicas, fascinantes, podem traduzir-se em vida, são luz para cada homem e cada mulher que peregrina neste mundo.

Como é decisivo que a Palavra de Deus percorra os caminhos do mundo, que hoje são também os da comunicação, informática, televisiva e virtual. Que a Bíblia entre nas famílias para que pais e filhos a leiam, com ela rezem e seja lâmpada dos seus passos no caminho da existência.

O Papa Francisco, a propósito do 16º centenário da morte de S. Jerónimo, ocorrido no dia 30 de setembro de 2020, publicou uma Carta Apostólica intitulada “O afeto pela Sagrada Escritura”.

Cada vez mais se interpreta a existência humana numa perspetiva exclusivamente horizontal e fechada nos confins do mundo, como se vivêssemos sob um grande guarda-chuva! Como se fossemos girassóis à meia-noite. É uma necessidade pastoral, particularmente nos tempos atuais, colocar o Evangelho em diálogo com a vida concreta e com a cultura. Criar ligames entre os problemas reais e o Evangelho para “afinarmos” assim o nosso pensar, sentir e agir. Tudo isto implica, antes de mais, suscitar sede e encanto pela luz, pela força e pela alegria do Evangelho.

6.Como seria bom que, particularmente, os jovens se deixassem “contagiar” por uma grande afeição pelo Evangelho. É o Papa Francisco que os convida: “Cristo chama-vos e envia-vos. Abri o vosso coração. Tende a coragem e a ousadia de levar o Evangelho aos outros, oferecendo-o e não o impondo. Renunciai a fazer da vossa vida cristã um museu de recordações. Fazei antes a experiência da alegria do serviço aos mais pequenos, do compromisso na Igreja, do voluntariado missionário nesta vossa terra ou pelos confins do mundo. Preparai-vos não apenas para o vosso bom êxito profissional, mas fazei da vossa vida um dom para melhor servir aos outros (cf. Papa Francisco, Discurso aos jovens em Talin, 25.09.2018 e MDMM 2018).

Está mesmo à porta a Jornada Mundial da Juventude. Juntamente com os jovens, testemunhemos e levemos o Evangelho a todos, a começar por quem está ao nosso lado até chegar aos confins do mundo.

É preciso reunirmo-nos, de muitos modos, para a escuta e para que a Palavra se faça vida e a nossa vida se faça Palavra.

7.Estamos em movimento desde 10 de outubro de 2021, quando o Papa Francisco convocou toda a Igreja para o Sínodo “Por uma igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Temos experimentado a alegria do encontro sincero e respeitoso entre irmãos e irmãs na fé, pois encontrar-se com os outros é encontrar-se com o Senhor que está no meio de nós!

Temos, hoje, mais consciência de que uma Igreja sinodal se funda no reconhecimento da dignidade comum derivada do Batismo, que torna todos os que o recebem filhos e filhas de Deus, membros da família de Deus e, portanto, irmãos e irmãs em Cristo, habitados pelo único Espírito e enviados para cumprir uma missão comum, caminhando lado a lado com todos.

A comunhão e a missão nutrem-se da participação comum na Eucaristia, que faz da Igreja um corpo «reunido e unido» (Ef 4,16) em Cristo, capaz de caminhar em conjunto rumo ao Reino. Uma Igreja sinodal nutre-se incessantemente na fonte do mistério que celebra na liturgia, «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde dimana toda a sua força» (SC 10), e em particular na Eucaristia.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja do encontro e do diálogo, que escuta e procura ser humilde, sabendo capaz de pedir perdão e que tem muito a aprender. É aberta, acolhedora e abraça a todos, mas sabe propor e anunciar, respeitosamente, caminhos novos a partir do Evangelho, numa compreensão sempre mais profunda da relação entre o amor e a verdade.

Uma Igreja sinodal é capaz de lidar com as tensões sem ser esmagada por elas, procurando sempre recompor a unidade: curar as feridas e reconciliar a memória, acolher as diferenças, procurando ser “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1).

Temos consciência de que as instituições e estruturas por si só não são suficientes para tornar a Igreja sinodal: são necessárias uma cultura e uma espiritualidade sinodais, animadas por um desejo de conversão ao Evangelho, alimentadas pela Eucaristia e sustentadas por uma formação adequada: integral, inicial e permanente, para todos os membros do Povo de Deus.

Com alegria partilho a concluir um inspirado poema do grande escritor e poeta transmontano, Miguel Torga:

Naquele tempo, numa barca, um dia,

Jesus, cansado,

tinha adormecido!

E levanta-se o mar embravecido

pelo rijo soprar da ventania…

Remavam os discípulos sem guia,

no pequeno batel quase perdido.

E cheios de um terror indefinido,

acordaram o Mestre que dormia.

Ergueu-se e disse às vagas, sem tardança:

Aquietai-Vos!

E logo houve bonança…

Que temeis? – aos discípulos volveu – Homens de pouca fé?

E eles tornaram:

«Quem é este Homem»?   – murmuraram –

a quem a tempestade obedeceu?”

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé do marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

(Só nos é concedida/ Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar!

(Miguel Torga, Antologia Poética, 5ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 1999)

EIS-ME AQUI HOJE ENTRE VÓS, COM O SOBRESSALTO E A CONFIANÇA DOS ENVIADOS.

ESTOU AQUI PARA PARTIRMOS JUNTOS, SINODALMENTE, À PROCURA DOS MELHORES CAMINHOS, NA ESCUTA RECÍPROCA E NA ATENÇÃO AO ESPÍRITO SANTO, NA CERTEZA DE QUE O MAIS IMPORTANTE É OLHARMOS SEMPRE PARA AQUELE CAMINHANTE MISTERIOSO DE EMAÚS QUE CONSTANTEMENTE NOS ILUMINA O CAMINHO E NOS FORTALECE COM A SUA PRESENÇA.

ASSIM SEREMOS UMA IGREJA CADA VEZ MAIS BELA E MAIS FIEL À SUA MISSÃO: DISCÍPULAS E DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS, DE IDADES E CONDIÇÕES DIFERENTES, MAS UNIDOS NO NOME DE JESUS! E ELE DIZ-NOS TAMBÉM HOJE: “NÃO TEMAIS… ESTOU CONVOSCO ATÉ AO FIM DOS TEMPOS”! (Mt 28, 20).

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda»

Mensagens populares deste blogue

Sermos David e Rafael, acalma-nos? Não, mas ampara-nos e torna-nos mais humanos!

  As palavras, essas, estão todas ditas. Todas. Mas continua a faltar-nos, a faltar-me, a compreensão. Uma explicação que seja. Só uma, para tão cruel desenlace. Da antiguidade até ao agora, o que é que ainda não foi dito? O que é que falta dizer? Nada e tudo. E aqui continuamos, longe, muito distantes, de encontrar a chave que nos abra a porta deste paradoxo. Bem sei que, quiçá, essa procura é uma impossibilidade. Que não existe qualquer via de acesso aos insondáveis desígnios. Da vida e da morte. Dos tempos de viver e de morrer. Não existe. E quando esses intentos acontecem em idades prematuras? Em idades temporãs? Tenras? Quando os olhos brilham? Quando os sonhos semeados estão a germinar? Aí, tudo colapsa. É a revolta. É o caos. Sermos David e Rafael, nestes tempos cruéis, não nos acalma. Sermos comunidade, não nos sossega. Partilharmos a dor da família, não nos apazigua. Sermos solidários, não nos aquieta. Bem sei que não. Mas, sejamos tudo isso, pois ainda é o q...

Frontal, genuíno, prestável: era assim o António Figueiredo Pina!

  Conheci-o no final dos anos 70. Trabalhava numa loja comercial, onde se vendia de tudo um pouco. Numa loja localizada na rua principal de Sátão, nas imediações do Foto Bela e do Café Sátão. Ali bem ao lado da barbearia, por Garret conhecida, e em frente da Papelaria Jota. Depois, ainda na rua principal, deslocou-se para o cruzamento de Rio de Moinhos, onde prosseguiu a sua atividade e onde se consolidou como comerciante de referência. Onde lançou e desenvolveu a marca que era conhecida em todo o concelho, a Casa Pina, recheando a sua loja de uma multiplicidade de ferramentas, tintas e artefactos. Sim, falo do António Figueiredo Pina. Do Pinita, como era tratado por tantos amigos e com quem estive, há cerca de um mês e meio, em sua casa. Conheceu-me e eu senti-me reconfortado, conforto que, naquele momento, creio que foi recíproco. - És o Acácio - disse, olhando-me nos olhos. Olhar que gravei e que guardo! Quem nunca entrou na sua loja para comprar fosse lá o que fosse? Naquel...

Murganheira: O melhor espumante de Portugal!

LETRASECONTEUDOS.PT Ficam no concelho de Tarouca, em Ucanha, a norte do distrito de Viseu, e são um mundo escondido sob aquela colina revestida pela vinha alinhada e bem verde, no verão, antes da colheita das uvas touriga, tinta roriz, gouveio, cerceal, chardonnay ou pinot . Trata-se das Caves da Murganheira e ali estão há mais de 60 anos.  Situadas num espaço magnífico, de transição entre a Beira e o Douro, as Caves da Murganheira conjugam modernidade e tradição. A modernidade do edifício onde se comercializa e prova o segredo encerrado em cada garrafa de espumante e a tradição das galerias das caves "escavadas" a pólvora e dinamite naquele maciço de granito azul. E se no edifício de prova - com um amplo salão, moderno e funcional, com uma enorme janela aberta sobre a magnífica paisagem vinhateira, que encantou os cistercienses - é necessário ar condicionado para manter uma temperatura, que contraste com o agreste calor estival, já nas galerias subterrâneas a temperatura...