Numa aldeia icónica do concelho de São Pedro do Sul, em
Manhouce, situada na serra da Freita, foi delicioso assistir ao festival
literário “A Gente (não) Lê”. É bem verdade que só estive presente no domingo,
18 de junho, à tarde, porém chegou para sentir que a literatura e que as
palavras dos autores têm mais encanto e mais força ditas naquela terra de
tradições e de emoções à flor da pele.
Ouvir o Sérgio Sousa Pinto, a Isabela Figueiredo e a Susana
Moreira Marques, sentados em fardos de palha, revestidos com mantas tecidas em
teares artesanais por mãos calejadas de mulheres serranas, ou sentados
diretamente no terreiro, sobre a erva espontânea que a terra dá à luz,
liberta-nos de preconceitos estéreis (seja lá o que isso for!) e deixa-nos mais
expostos à contaminação pelas palavras que escutamos.
Depois foi LER DEVAGAR versos, foi ouvir as
sonoridades das cordas do cravo e escutar as polifonias doces da Isabel
Silvestre e do seu coro, do coro que ela tão bem moldou em décadas de uma vida
dedicada e intensa: sim, tratou-se de homenagear José Pinho sob o céu (hoje
plúmbeo) de Manhouce.
Sabe sempre muito bem ir a Manhouce! A primeira vez foi nos anos
90 para escutar as suculentas palavras do Chefe Silva, no âmbito da formação e
educação de adultos e agora foi para ouvir a literatura a correr nestes
tempos da hipermodernidade. No interim tantas outras idas aconteceram, nem
todas pelos melhores motivos. É que por vezes o inferno anda à solta serra
acima e as avionetas que o combatem caem dos céus!
Parabéns pela iniciativa.
Acácio Pinto, junho 2023