Fiquei com a pulga atrás da orelha desde que vi e li os
primeiros esboços desta novel viagem a que o José Rui Martins e o grupo de
teatro Trigo Limpo | ACERT se haviam abalançado. Mais uma viagem – entre tantas
outras que há mais de trinta anos vêm efetuando – que tinham em mãos, esta, a
do elefante, inspirada no livro de José Saramago.
Trata-se de uma adaptação livre da obra homónima, uma
adaptação dramatúrgica pelo olhar do José Rui e do Pompeu.
E vai daí, tinha que me confrontar com eles. Tinha que ser
interpelado por esta sua criação. Tinha que saborear todas as suas sonoridades.
Como a rota do elefante andava pelos espaços raianos,
saí-lhes ao caminho no Fundão, já depois do elefante se ter e ter alimentado as
gentes de Figueira de Castelo Rodrigo, onde se estreou, São João da Pesqueira,
Pinhel e Sortelha. Tudo locais de grande simbolismo. De forte recorte
histórico. De elevada matriz cultural.
A expectativa que coloquei – não sei ter outra perante este
grupo da arte e da cultura, de terras de besteiros – era alta, é sempre alta,
e, confessado fico agora, dizendo que foi fortemente correspondida.
Excelente teatro de rua. Repito: excelente teatro de rua.
O texto - acutilante; a encenação - perfeita; os atores -
maduros; a música - comprometida; a luz - límpida; o elefante - meigo e
obediente!
E os poderes? Esses, sempre efémeros, sejam terrenos ou
divinos, pois os homens, os seus intérpretes, sempre tão transigentes ao pecado!
Gostei da fantasia, do sonho, da narrativa. Dos diálogos e
dos silêncios. Muito, do elefante salomão, ou sulimão. E nele, da recriação da
metáfora sobre a vida humana: o caminho é longo e quantas vezes após a chegada,
é a morte! A morte fria e crua, como a do elefante um ano após chegar a Viena!
Magnífico espetáculo que ainda poderá ser visto em Castelo
Branco, Tondela, Lisboa e Rivas-Vaciamadrid.
"Sempre chegamos
ao sítio aonde nos esperam", como dizia José Saramago, e como tal este teatro de rua
também está a chegar aos sítios aonde o esperam… e que pena tenho que não
aconteçam mais sítios à sua espera, aqui pelos nossos municípios da beira alta,
para além de Tondela, claro está.
Parabéns ao José Rui Martins e a todos os colaboradores do Trigo Limpo | ACERT, por mais esta dádiva.
Parabéns ao José Rui Martins e a todos os colaboradores do Trigo Limpo | ACERT, por mais esta dádiva.
Acácio Pinto
Diário de Viseu