segunda-feira, 19 de março de 2012

[opinião] DN de hoje: Afirmar o português no mundo

Artigo que publiquei no DN de hoje, 19 de março, na pág. 55.
É uma artigo em que exponho alguns argumentos em favor do acordo ortográfico e que aqui transcrevo:
«Vem este título – afirmar o português no mundo – a propósito do acordo ortográfico que, nestes últimos tempos, tanto ruído tem causado na opinião pública.

É nesse contexto que também aqui vou deixar a minha posição a favor do acordo que, como se sabe, Portugal está a aplicar fruto das ratificações e resoluções de que o mesmo foi alvo.
E faço-o num momento em que um vasto conjunto de portugueses lhe decidiram fazer um ataque cerrado mas, em grande medida, serôdio.
Em primeiro lugar porque o acordo inicial remonta a 1990 e o segundo protocolo modificativo de 2004 foi aprovado na Assembleia da República em 2008 (com 3 votos contra!). Isto é, houve quase duas décadas para o debate se travar e, praticamente, o pleno dos deputados aprovou-o.
[Ou será que foi preciso Vasco Graça Moura chegar ao CCB, e desautorizar o primeiro-ministro, para que este assunto voltasse à ribalta?]
Em segundo lugar, há que considerar que não é com duas ortografias oficiais da língua portuguesa que atribuímos verdadeira universalidade e prestígio ao português no mundo, nomeadamente nas instituições e nas academias internacionais, para além de que uma grafia comum na CPLP abre novas oportunidades ao mercado da edição em português.
Em terceiro lugar, temos que ter em conta que qualquer língua é uma entidade em permanente construção e evolução e em nenhum momento ela cristaliza. Não tenhamos, pois, medo desta mudança que visa aproximar a grafia da articulação fonológica, pois já no passado também houve alterações, neste como noutros aspetos, também contestadas à época, mas que foram absorvidas pelos escreventes [p.e. aflicto > aflito; exhausto > exausto; phosphoro > fósforo; sciência > ciência].
Em quarto lugar gostaria de dizer que depois de cem anos de divergências ortográficas (desde o acordo de 1911 que não foi extensivo ao Brasil) e depois de várias tentativas goradas de acordos envolvendo a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Lisboa de Ciências (1931, 1943, 1945, 1971/1973, 1975 e 1986) foi finalmente encontrado um texto comum que, podendo ter lacunas, é um acordo internacional e um acordo é, em si mesmo, um facto que encerra convergência, que é positivo e que importa, portanto, enfatizar.
Em quinto lugar, incluo-me no lote daqueles que acham que o “alfa e o ómega” da evolução da língua não se atingiu nas gerações passadas, mas também não se atinge na nossa… Ou seja, parafraseando Galileu, “porém, ela move-se”.
Em suma, admito que possamos passar por um período de alguma "cacofonia ortográfica", como lhe chamou Joaquim Alexandre Rodrigues, porém isso não deve invalidar, por si, o acordo, uma vez que os falantes do futuro, as crianças e os jovens, farão uma rápida integração de todos os reajustamentos que dele resultam.»

11 comentários:

  1. Primeiro não percebo a necessidade de haver qualquer acordo que seja. Não existe absolutamente nenhuma vantagem. Os diversos povos que usam o português como lingua oficial sempre se entenderam e com certeza que não será um acordo qualquer que irá trazer algum bebefício que seja. Temos casos praticos como o espanhol falado e escrito em Espanha é bem diferente que o espanhol falado e escrito no México, Argentina, Venezuela e no entanto todos se entendem. Torna assim este acordo uma falácia e dizimando assim a cultura escrita dos povos.
    A escrita sem dúvida que evolui no entanto a sua evolução não deve ser feita por decreto e sem uma ampla discução pública.

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  2. Obrigado pelo comentário.
    A minha opinião está clara no artigo. Respeito a sua, embora dela discorde.

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  3. Sr. Deputado,
    A sua opinião está, certamente, claríssima, no artigo, e penso que não poderia discordar das suas conclusões se fossem verdadeiras as premissas que as sustentam. Permita-me, no entanto, e com todo o respeito, demonstrar-lhe que não são.

    Começa o Senhor Deputado por afirmar que «o acordo inicial remonta a 1990 e o segundo protocolo modificativo de 2004 foi aprovado na Assembleia da República em 2008 (com 3 votos contra!). Isto é, houve quase duas décadas para o debate se travar e, praticamente, o pleno dos deputados aprovou-o.»
    Sendo este facto inegável, a aprovação pela Assembleia da República não é, por si só, garantia da bondade de uma decisão. De resto, como o Senhor Deputado sabe tão bem como os restantes portugueses, se tem estado atento a esta matéria, a contestação vem de muito longe, desde antes de 1990, embora os meios de comunicação social só recentemente estejam a dar-lhe dimensão mediática.
    Quanto à pergunta que coloca «será que foi preciso Vasco Graça Moura chegar ao CCB, e desautorizar o primeiro-ministro, para que este assunto voltasse à ribalta?», se o Senhor Deputado tem acompanhado esta matéria, sabe também que, desde meados da primeira década deste século que se multiplica a contestação na Internet e que desde 2008 que circula uma petição em papel relativa a uma ILC contra o Acordo Ortográfico. Quero ainda lembrar o Senhor Deputado que a vulgarização da Internet não é dos anos 80 nem dos anos 90 e é perfeitamente natural que, só nos últimos anos, a contestação tenha atingido a dimensão que lhe conhecemos hoje.

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  4. Diz em segundo lugar, V.Ex.ª que «há que considerar que não é com duas ortografias oficiais da língua portuguesa que atribuímos verdadeira universalidade e prestígio ao português no mundo, nomeadamente nas instituições e nas academias internacionais, para além de que uma grafia comum na CPLP abre novas oportunidades ao mercado da edição em português.»
    Embora não esteja demonstrada a perniciosidade de diferentes ortografias para o prestígio de uma língua (veja-se o caso do Inglês cujas ortografias oficiais diferem substancialmente nos dois lados do Atlântico não deixando por isso de ser, hoje, a língua franca em todo o globo), poderia até reconhecer algumas vantagens nessa ortografia única. Acontece, Senhor Deputado, que para prejuízo desse argumento concorre o próprio Acordo Ortográfico. Com efeito, as ortografias de um e outro lado do Oceano continuam a ser tão diferentes (ou até mais) do que já eram. Dou-lhe apenas três exemplos: as grafias diferentes "facto" (Portugal) e "fato" (Brasil) continuam a existir e as grafias anteriormente iguais "recepção" e "perspectiva" passam a escrever-se de forma diferente já que, no Brasil, ambas as duplas etimológicas "pç" e "ct" são distintamente articuladas na linguagem oral.

    Argumenta V.Ex.ª, em terceiro lugar, que «temos que ter em conta que qualquer língua é uma entidade em permanente construção e evolução e em nenhum momento ela cristaliza.»
    Neste ponto não poderia estar mais de acordo com o Senhor Deputado embora eu extraia desta afirmação, precisamente, a consequência inversa: é certo que a língua, enquanto entidade cultural imaterial, é uma realidade viva e em constante mutação. Daí lhe vem a sua riqueza e a sua fertilidade. Mas, Senhor Deputado, a língua muda naturalmente, não muda por decreto. São os falantes e os escreventes da língua que a mudam legitimamente. Os linguistas, em geral, e os lexicógrafos, em particular, recolhem e inventariam as formas da oralidade e da escrita, integrando-as nos dicionários, vocabulários e prontuários. As palavras e as formas vão caindo em desuso, outras surgem, coexistem durante anos acabando as primeiras por se tornar arcaísmos que já só constam de dicionários hostóricos e etimológicos e as últimas por entrar na lingua corrente, oral e escrita. Isto é a evolução de uma língua viva.
    Apela ainda, V.Ex.ª, para que «Não tenhamos, pois, medo desta mudança que visa aproximar a grafia da articulação fonológica». Não posso concordar. Quando se pretende que "recessão" e "receção" se leiam de forma diferente não estamos a aproximar a grafia da fonética já que deixa de haver qualquer elemento na escrita que nos diga como a palavra se pronuncia. É certo - já ouvi esse argumento - que já há outras palavras que se escrevem da mesma forma e se pronunciam de forma diferente mas este acordo, ao invés de as diminuir, vem multiplicá-las.
    Escreve, também, que «já no passado também houve alterações, neste como noutros aspetos, também contestadas à época, mas que foram absorvidas pelos escreventes». É verdade! Mas nessa passado a que se reporta vivíamos em Ditadura e num país com mais de 80% de analfabetos. Felizmente, vivemos num país livre, onde V.Ex.ª pode ser Deputado e onde eu, neta de operários e camponeses, pude tirar uma Licenciatura, um Mestrado e o que eu mais for capaz.

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  5. Afirma, em quarto lugar que «depois de cem anos de divergências ortográficas (desde o acordo de 1911 que não foi extensivo ao Brasil) e depois de várias tentativas goradas de acordos envolvendo a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Lisboa de Ciências (1931, 1943, 1945, 1971/1973, 1975 e 1986) foi finalmente encontrado um texto comum que, podendo ter lacunas, é um acordo internacional e um acordo é, em si mesmo, um facto que encerra convergência, que é positivo e que importa, portanto, enfatizar.» Creio já lhe ter demonstrado que, indpendentemente das possíveis vantagens de um bom acordo, este, em concreto, não foi bem conseguido.

    «Em quinto lugar, incluo-me no lote daqueles que acham que o “alfa e o ómega” da evolução da língua não se atingiu nas gerações passadas, mas também não se atinge na nossa… Ou seja, parafraseando Galileu, “porém, ela move-se”.» Totalmente de acordo, Senhor Deputado, quando dizemos que a língua evolui, isso não pressupõe qualquer espécie de desrespeito pelas formas como usaram a nossa língua Fernão Lopes, Camões, António Vieira, Machado de Assis, Aquilino Ribeiro, Jorge Amado, Agualusa, Mia Couto ou Saramago. Outros virão, no futuro, e escreverão de outras formas, todas excelentes e todas motivo de orgulho para os luso-falantes que nos sucederem.
    Mas, insisto, essa evolução que fez e continuará a fazer da História da Língua Portuguesa uma das mais belas e ricas de todas as línguas do mundo, tem de ser natural e tem de partir dos que a falam e a escrevem.
    Permita-me terminar com uma simples alegoria: conhece porventura, V.Ex.ª, Procusto, a personagem da mitologia grega que obrigava os seus hóspedes a caber perfeitamente na cama que lhes oferecia: aos mais baixos, esticava os membros, aos mais altos, amputava-os. O Acordo Ortográfico é uma espécie de cama onde os Senhores Deputados e todos os Governos das últimas décadas têm tentado deitar a nossa Língua Pátria. Não permitiremos a sua amputação.
    De V.Ex.ª atentamente,
    Maria Clara Assunção

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  6. Vamos "afirmar o português no mundo? Vamos lá então, senhor Deputado: http://issuu.com/roquedias/docs/jrd_ao_estado_choldra

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  7. Gostaria de chamar a atenção ao senhor deputado que a função de deputado é representar os cidadãos, ora sendo a população portuguesa esmagadormente contra o (des)acordo ortográfico, laço-lhe a seguinte questão: Em que medida o senhor e os seu pares estão a representar os cidadãos ? E se não estão a representar os cidadãos, o que é grava, estão ao serviço de quem ?

    Referindo-me ao (des)acordo a mudança que os brasileiros terão de fazer é praticamente nula, representa apenas 0,5%, por ouro lado os cidadãos dos outros estados lusos terão de fazer drásticas mudanças que são inaceitáveis, como é que explica esta diferença de tratamento, exigências e alterações, não lho incomoda a sua posição ?

    E o que dizer da perda de uma importante base latina da língua portuguesa, também não fica incomodado ou isto é irrelevante para si ? Se este (des)acordo fosse avante porque não o será, a língua portuguesa perderia uma base que não só existe em todas as línguas latinas como no inglês e alemão. Qualquer pessoas de boa fé não poderá de forma alguma descurar estes pontos por demais relevantes.

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  8. Pode-se justificar o AO como bem se entender, mas porquê sugerir, sequer, que passámos a ter uma única grafia, quando é óbvio - e como tão bem articulou Maria Clara Assunção - que se por um lado se unificaram termos, por outro também se mantiveram divergências, se criaram novas em casos em que as grafias coincidiam (i.e., "desunificou-se" o que estava "unificado"), e, além disso, se legitimaram grafias duplas internas, com base na facultatividade, no "escreve-se como se pronuncia"?

    Por acaso existe algum dicionário ou corrector ortográfico de "Português Unificado"? Não existe no mundo real. A Priberam vende correctores para PT-BR e para PT-PT. Não há versões recentes "unificadas", nem me parece que vá haver alguma vez. O OpenOffice lista-me a disponibilidade em dicionários de 14 variantes de Inglês e 19 de Espanhol. Porque é que no mundo da Língua Portuguesa se pretende viver a ficção da grafia unificada?

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  9. Obrigado pelos vossos comentários. As opiniões divergentes convivem bem em democracia!
    Abraço.

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  10. A unificação deve ser uma promessa de multi-orgasmos para os políticos!....a destituição da identificação - a linguagem é a maior - não torna legitimado o acordo;será à revelia da maioria,portanto, na medida em que o povo é que legitima a língua pelo uso, frequência e necessidade que lhe dá. No dicionário (em qualquer um), representatividade em democracia significa representar e defender um grupo cujas ideias se assemelham e as ideologias se identificam, grupo esse que nos elege. Distorcer a seu belo prazer esta representatividade e tornar consensual algo que não pode ser determinado (o poder tudo pode, não deve) por decreto só aumenta a certeza ao povo da falta de reflexão ao escolher os seus representantes, da leviandade com que o faz, neologismos sim, novilingua não!....a lembrar a novilíngua, só nos faltava a lembrança da contemporaneidade das obras de Orwell...porque as lembrar? O povo que confia tomado pela fé é um povo cego. O povo que estuda cadernos eleitorais antes de tomar decisões é um povo sério. Um governo que pretende conduzir com seriedade uma nação não precisa dessas (in)"glórias" particulares para se confundir na Unificação de outros poderes/países. Quem legitima o poder em democracia? O povo. Quem representa a língua em democracia? O povo. A língua não é inerte, é viva e tanto é que existem em cima argumentos e refutações bem fundamentadas que não deixam qualquer dúvida de que esta questão do (des)acordo ortográfico é uma falsa questão... a somar-se aos verdadeiros problemas que estamos a viver. O problema é a retirada do poder de decisão ao povo e isso é mais sério que desacordo ou divergência e chama-se em bom português (inicialmente e gradativamente: poder é ópio, poder é ascensão e poder é uso e abuso do mesmo): Ditadura, repressão, opressão, arrogância, falta de valores e prostituição de cargos. A riqueza de uma língua não se mede pelas supressões mas pelos neologismos e adendas e até pelos estrangeirismos...Haja tolerância e lugar ao debate.

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  11. Vi que o seu artigo foi referenciado aqui:
    http://emportuguezgrande.blogspot.pt/2012/03/acacio-pinto-em-portugues-grande.html

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