Que estes tempos da hipermodernidade são muito conturbados e
andam muitos agitados já todos nós sabemos.
Os nervos andam à flor da pele. Todos nós nos confrontamos
com respostas impulsivas. Com decisões sem qualquer racional. Com ataques de
caráter. Com julgamentos sumaríssimos. Com condenações efetuadas no largo
do pelourinho.
Há sempre aqueles que colocam tudo em causa. Que tudo
questionam. Que tudo querem reverter. Que tudo querem reavaliar. Há assim como
que uma onda de impulsos justicialistas a pairar no ar.
A medida? O padrão de medida? Esse é o atual. O de agora.
Querem medir o ontem com as ferramentas atuais e com o seu critério. Com os
princípios de agora. De preferência, à luz dos seus valores. Querem efetuar a
ablução do mundo com a sua água benta.
São estátuas de homens e mulheres que devem ser decepadas.
São pinturas que devem ser queimadas. São símbolos que devem ser renegados. São
livros que devem ser reescritos. São nomenclaturas que devem ser abolidas.
Enfim, às vezes parece mesmo que é o passado, onde, afinal, também viveram, que
tem de ser enterrado, bem fundo, e ser banido do mundo dos vivos.
Sejam os descobrimentos, sejam os colonialismos,
sejam os impérios, sejam os conteúdos de livros
escritos há décadas, seja-lá-mais-não-sei-eu-o-quê, tudo serve para que as suas
verdades, de hoje e de agora, sejam transformadas em verdades universais.
Esta crónica foi inspirada num facto, a censura,
profusamente noticiada, que está a ser efetuada aos livros da autora do
primeiro livro que eu li, quando tinha 9 anos, Os Cinco na Ilha do
Tesouro. Falo de Enid Blyton, a consagrada autora dos livros da coleção dos
Cinco e dos Sete, por utilizar linguagem dura e fora dos cânones atuais,
considerada politicamente imprópria. Mas poderia também falar dos brasões do
Jardim do Império cuja erradicação era exigida, ou da destruição dos Padrão dos
Descobrimentos, ou de tantas outras polémicas que por aí correm.
Com certeza que deveremos evoluir nos conceitos, evoluir no
modo de olhar a realidade, evoluir a nível das liberdades individuais, nas
igualdades, na assunção de responsabilidades… porém, cumpramos, entretanto, um
dos preceitos mais elementares nesta matéria, e que nos deveria acompanhar
quando olhamos para o passado, o da não retroatividade.
A realidade filosófica, política, social e económica de hoje
não é a mesma de ontem. E, por isso, o melhor contributo que poderemos dar
nessa matéria é o de assumirmos as condutas e os comportamentos de então, sem
nunca os querermos elidir. Se ontem não atingimos o absolutismo do pensamento,
hoje também não estamos lá próximos. Estamos sempre em viagem. É por isso que
eu gosto da relatividade.