Não te conhecia de lado nenhum. Nunca te houvera visto. Nunca. Nunca houvera visto o teu vulto nem, sequer, houvera visto a tua sombra a escapar-se numa qualquer esquina das ruas de acesso ao largo do Camões ou nas vielas do bairro Alto.
Mas nunca é mesmo nunca, pese embora Lisboa, a do Pessoa ou
da Natália, ser muito pródiga em encontros. Em encontros inopinados e em
sequentes proximidades nos vãos de menor crepúsculo. Sombrios. Mesmo cegos.
Foste, assim como, a estrela mais longínqua do sistema
solar. Aquela que era invisível. Aquela que nunca esteve ao alcance dos zooms,
tantas vezes, aqui e ali feitos. Aquela que percorria as suas rotas no ocaso do
meu quotidiano.
Até um dia. Há sempre um dia. Um dia em que, de uma qualquer
rua da Graça ou de um qualquer quarteirão de Carnide, um cometa esvoaça. Começa
sempre por ser cometa. Luminoso, fascinante, fugaz. Um raio que nos cega e nos
apela a códigos em braile. Uma luz que perpassa uma lente convexa e nos queima
a pele.
E quando a queimadura perdura? Quando, afinal, a dor não
passa? Quando a ferida continua aberta? Foi isso. Ver-te. Olhar-te.
Conhecer-te. E de repente, de cometa, viraste estrada.
Querer-te? Foi desde logo. Mesmo ali. Com o cheiro a
Moçambique e com o som do rio. O cais foi do Sodré. Sim, e de facto apeteceu-me
muito, desde logo, ter culpa com dolo.
Contudo, não te conhecera há mais do que algumas horas. E
por ali me fiquei. Nos ficámos.
Todavia a memória não permitiu que hibernasses. Que te
escondesses, de novo, na tua órbita distante. Até porque o disco duro começou a
registar tudo. Rigorosamente tudo. Ainda hoje abro, de memória, os ficheiros
todos e sorvo tudo. Percorro os textos que guardo em word, mas sobretudo as
imagens em jpeg, ou ainda os vídeos em mp3. Está ali tudo. Desse momento. E dos
demais. De todos os demais. Daqueles caminhados de mão dada e daqueloutros em
contramão.
E depois? Depois é hoje. O hoje e o agora. Este estar e
continuar com fome. Com a mesma sede de ontem. Com o mesmo olhar de outrora.
Com a mesma crença neste aqui.
Afinal, com o mesmo querer em ir molhar os pés nas águas
atlânticas ou nas dos rios interiores. Em trilhar os íngremes caminhos de
Monsanto ou os muros morenos do castelo de Montemor, do Novo ou do Velho. Em
serpentear pelos barrocais da raia ou em perscrutar o infinito nos plainos da
meseta, em Castela.
Não, não te conhecia! Agora, conheço-te um dia de cada vez e
mais outro. E vivo-te, vivo-te em cada dia que te conheço!
[©Letras e Conteúdos]