Opinião DÃO E DEMO
Vivemos tempos sombrios no que concerne aos direitos dos
trabalhadores e à dignidade e remuneração do trabalho.
Esta é uma daquelas questões que tem vindo a piorar no
decurso destas últimas décadas. As tais décadas de afirmação das “promissoras”
globalização do comércio e “democratização” dos acessos à net. Dizia-se que
caminhávamos para o tempo em que a igualdade de oportunidades rasgaria as
amarras e todos seríamos mais iguais. Dizia-se que a breve prazo as
circunstâncias dos berços de nascimento não seriam determinantes para o rumo de
cada cidadão.
Era assim como que um éden mesmo ali à mão!
É bem verdade que nem todos embarcaram neste canto do cisne.
Que nem todos trincaram esse engodo bem confecionado.
Mas o que é facto é que aqui chegámos e aqui estamos, hoje,
todos aterrados e soterrados neste mundo de efetivos poderes dos “estados” económicas
e financeiras supra estatais. Destes “impérios sem rosto” a quem paulatinamente
os poderes políticos dos estados se entregaram em nome dos nobres valores do
investimento, da competitividade, da eficiência e do livre comércio.
E vai daí, esse poder de facto, desses “estados”, a quem não
conhecemos as feições faciais, disseram ao que vinham e aí estão em velocidade
cruzeiro a imporem as suas regras.
E hoje, são aos milhões aqueles que face à iminência do
desemprego e da precariedade se confrontam com a aceitação de regras e ditames
leoninos nos mais diversos setores da economia. Tudo o que é economia é alvo das
“diretivas” comerciais e laborais desses grupos. E as novas guerras, agora,
passaram a ser entre esses impérios sem rosto, que quantas vezes arrastam povos
inteiros para a fome e para a miséria.
Assistimos como que a uma “(re)escravização” do homem em
muitas paragens do mundo.
E em Portugal os laivos destas políticas andam também por
aí. As políticas desenvolvidas, nomeadamente, ao longo destes últimos anos
tinham nos seus fundamentos mais profundos muitos destes pressupostos. E pelo
menos uma coisa, estas políticas, geraram: “Ferraris e Maseratis batem recordes
de vendas”, segundo título do JN de dia 5 de janeiro.
É bem verdade que não vai ser possível alterar tudo e
sobretudo de uma vez. Mas não tenho dúvida de que se impõe regressar à política,
à ideologia, e a tudo o que ela significa na linha do respeito pela dignidade
da pessoa no trabalho e na vida. E esta linha tem que ecoar e vingar nas
lideranças políticas da Europa, da União Europeia, para que esta retorne aos seus
verdadeiros valores fundacionais.
Acácio Pinto