Avançar para o conteúdo principal

Crítica de Cinema | A queda de Wall Street (2015)

Crítica de Cinema DÃO E DEMO

***

(Vale a pena)

The Big Short (2015) | Steve Carell, Ryan Gosling, Christian Bale | Realizado por Adam McKay | 130 min.

Por: José Pedro Pinto

Não é possível ficar indiferente à A Queda de Wall Street. O filme é uma tragédia no pleno sentido do termo – com forças invisíveis a conspirar desde o início para que no fim, apesar de esforço em contrário e até graças a ele, tudo acabe mal. Só que as forças em questão aqui não eram invisíveis – tanto que houve quem desse por elas, quem desse conta que o fim da festa estava iminente... mas quem é que gosta de desmancha-prazeres? E a observação mais pertinente do filme é que, tal como O Lobo de Wall Street (2013) percebera antes dele, a estupidez humana atinge proporções tão incomensuráveis de imbecilidade, que se chega a tornar mais fácil entendê-las através da comédia. O que por si já é outra tragédia.

O segundo parágrafo das minhas críticas costuma ser dedicado ao resumo da história, mas neste caso não há grande propósito nisso – toda a gente conhece bem a história da crise financeira. Ou, como o filme nota e bem: toda a gente sabe repetir uns quantos soundbites que apanhou na comunicação social para não parecer ignorante em conversa com os amigos. Porque entender realmente a história exigiria que percebêssemos os termos financeiros complicados que se usam nestas discussões – só que como o filme nota e ainda melhor, estes têm precisamente a dupla função de criar um dialeto próprio para os insiders, e de fazer com o que o resto da malta não perceba bem do que estão a falar e os deixem em paz. Tendo isso em conta, o filme toma a escolha certa: pergunta-nos se estamos a perceber alguma coisa, e como a resposta é inequivocamente “não”, corta para a Margot Robbie a tomar um banho de espuma, e pede-lhe que se dirija aos espectadores e lhes explique os termos mais complicados das questões financeiras – o que ela faz, em tom sensual, enquanto bebe champanhe. É garantido que se presta mais atenção.

Fico contente que tenha sido Adam McKay a realizar este filme. Gostei bastante dos seus Anchorman (2004 e 2013) e do Filhos e Enteados (2008), ambos sobre adultos a comportarem-se como crianças num mundo que espera que eles sejam sérios. Este filme é sobre o mesmo, e admite-o sem problemas. Atira as culpas da crise financeira aos bancos e às agências de ratings, mas nem parece levar-lhes isso muito a mal: o filme trata essas instituições como sítios onde ser um energúmeno automatizado é um pré-requisito para obter o emprego, por isso como julgá-las? E se as fosse a julgar, quem é que julgaria? Os empregados estão a cumprir ordens, não é função deles avaliar se estas são justas. Julgaria então os manda-chuvas? Mas quem são esses? O filme parece não fazer ideia – os bancos aparecem como entidades auto-geridas e auto-reguladas, que se mantém em piloto automático a seguir uma trajetória que ninguém se atreve a questionar, “porque é assim que as coisas funcionam”. Mas o filme nota algo importantíssimo: que essas trajetórias, disfarçadas sob o termo "regras", são definidas por pessoas – e as pessoas conseguem ser completas imbecis, pelo que é perfeitamente recomendável duvidar das regras que elas definem. De qualquer maneira, o filme é demasiado inteligente para deixar os bancos passarem por vilões enquanto o resto do pessoal lava as mãos: os protagonistas, conscientes da crise iminente, começam a investir contra o mercado imobiliário, torcendo por um abalo que deixará milhões de pessoas sem casa e sem emprego, mas que os deixará absurdamente ricos.

E o filme faz ainda mais outra coisa muito bem: dá-nos Mark Baum (Steve Carell). Enquanto que a maior parte das personagens tentam agir com alguma cortesia e decoro e servindo-se dos meios adequados, Mark está simplesmente demasiado fulo para isso, sempre à beira de partir os dentes a alguém ou de subir a um prédio e desatar aos gritos para que toda a gente fique a saber que o mundo está a ser guiado por condutores bêbados – dependendo do que estiver mais à mão. E num filme destes é precisa essa personagem, para nos ajudar a libertar a fúria – ou será que mais valia não a ter, para sairmos do cinema ainda com essa fúria armazenada, e vontade de fazer algo acerca disso? Não sei. Até porque A Queda de Wall Street não é um filme com esperança, e eu também não.

(Foto: laweekly.com)

Mensagens populares deste blogue

Sermos David e Rafael, acalma-nos? Não, mas ampara-nos e torna-nos mais humanos!

  As palavras, essas, estão todas ditas. Todas. Mas continua a faltar-nos, a faltar-me, a compreensão. Uma explicação que seja. Só uma, para tão cruel desenlace. Da antiguidade até ao agora, o que é que ainda não foi dito? O que é que falta dizer? Nada e tudo. E aqui continuamos, longe, muito distantes, de encontrar a chave que nos abra a porta deste paradoxo. Bem sei que, quiçá, essa procura é uma impossibilidade. Que não existe qualquer via de acesso aos insondáveis desígnios. Da vida e da morte. Dos tempos de viver e de morrer. Não existe. E quando esses intentos acontecem em idades prematuras? Em idades temporãs? Tenras? Quando os olhos brilham? Quando os sonhos semeados estão a germinar? Aí, tudo colapsa. É a revolta. É o caos. Sermos David e Rafael, nestes tempos cruéis, não nos acalma. Sermos comunidade, não nos sossega. Partilharmos a dor da família, não nos apazigua. Sermos solidários, não nos aquieta. Bem sei que não. Mas, sejamos tudo isso, pois ainda é o q...

Frontal, genuíno, prestável: era assim o António Figueiredo Pina!

  Conheci-o no final dos anos 70. Trabalhava numa loja comercial, onde se vendia de tudo um pouco. Numa loja localizada na rua principal de Sátão, nas imediações do Foto Bela e do Café Sátão. Ali bem ao lado da barbearia, por Garret conhecida, e em frente da Papelaria Jota. Depois, ainda na rua principal, deslocou-se para o cruzamento de Rio de Moinhos, onde prosseguiu a sua atividade e onde se consolidou como comerciante de referência. Onde lançou e desenvolveu a marca que era conhecida em todo o concelho, a Casa Pina, recheando a sua loja de uma multiplicidade de ferramentas, tintas e artefactos. Sim, falo do António Figueiredo Pina. Do Pinita, como era tratado por tantos amigos e com quem estive, há cerca de um mês e meio, em sua casa. Conheceu-me e eu senti-me reconfortado, conforto que, naquele momento, creio que foi recíproco. - És o Acácio - disse, olhando-me nos olhos. Olhar que gravei e que guardo! Quem nunca entrou na sua loja para comprar fosse lá o que fosse? Naquel...

Ivon Défayes: partiu um bom gigante.

  Ivon Défayes: um bom gigante!  Conheci-o em finais dos anos oitenta. Alto e espadaúdo. Suíço de gema. Do cantão do Valais. De Leytron.  Professor de profissão, Ivon Défayes era meigo, afável e dado. Deixava sempre à entrada da porta qualquer laivo de superioridade ou de arrogância e gostava de interagir, de comunicar. Gostava de uma boa conversa sobre Portugal e sobre a terra que o recebeu de braços abertos, a pitoresca aldeia do Tojal, que ele adotara também como sua pela união com a Ana. Ivon Défayes era genuinamente bom, um verdadeiro cidadão do mundo, da globalidade, mas sempre um intransigente cultor do respeito pela biodiversidade, pelo ambiente, pelas idiossincrasias locais, que ele pensava e respeitava no seu mais ínfimo pormenor. Bem me lembro, aliás, das especificidades sobre os sons da noite que ele escrutinava, vindos da floresta, da mata dos Penedinhos Brancos – das aves, dos batráquios e dos insetos – em algumas noites de verão, junto ao rio Sátão. B...