Crónica também publicada em Letras e Conteúdos
Vou falar-vos hoje de um tempo em que as carreiras, (qual autocarros qual quê), andavam à pinha, sobretudo nos dias das feiras de Aguiar ou de Trancoso, de Castendo ou de Viseu. Nesses dias só o desdobramento resolvia o problema do excesso de passageiros. Nem o tejadilho escapava. Aí não havia espaço nem para mais um saco ou canastro. Que o digam os cobradores, que se viam e desejavam, quando tinham de subir pela escada da traseira com a carga às costas e encontrar o último dos buracos onde a colocar.
Dentro da carreira, nesses dias, a turbamulta não se calava. Era uma
algazarra permanente. E os cigarros Kentucky do tio Zé das Quintas e os
Definitivos do tio Xico Mocas eram a tempestade perfeita para os ‘gómitos’ dos
miúdos e de alguns graúdos mais sensíveis àquele ambiente.
E QUANDO O MOTORISTA IA À TABERNA BEBER MEIO QUARTILHO?
Depois eram as paragens nas tascas de Coja, ou de Rãs, do
Cabril ou de Rio de Moinhos, para que o motorista e o cobrador pudessem
aliviar, com meio quartilho de vinho palheto, a canícula que lhes secava as
goelas. Esta era uma rotina que parecia fazer parte do contrato. Nem que não
houvesse passageiros para entrar ou sair, havia paragens obrigatórias. E como a
PVT*, a polícia da altura, ainda não tinha balões, tudo decorria como o vagar
dos dias.
Os bilhetes, esses, eram magníficos. Um livro de folhas
vermelhas, amarelas ou brancas com o nome, na parte superior, de todas as
localidades onde a empresa operava. Depois, por baixo, duas colunas. A da
esquerda com os valores de 10 em 10 escudos e a da direita com valores da
unidade, de 1 em 1 até 9 escudos. A encimar as duas colunas era a linha dos centavos,
de 10 a 90. Depois competia ao cobrador rasgar o bilhete pelo preço certo (ver foto).
Fazia-o com uma régua metálica que trazia no bolso do casaco da farda. A mala
do dinheiro, para arrecadar a cobrança e fazer o troco, andava sempre a
tiracolo. Qual MB Way, qual Moey, qual contactless, qual carapuça! Só mesmo com
dinheirinho ao vivo se comprava o bilhete que era preciso conservar até ao
destino.
MONCORVO-VISEU-MONCORVO: UMA CARREIRA ICÓNICA
Mas a carreira que mais me impressionava era a que todos os
dias, repito, todos os dias, fazia o trajeto entre Moncorvo e Viseu de manhã,
com regresso no final do dia. Com um rigor horário absoluto. Saía de manhã cedo,
ainda madrugada, de Trás-Os-Montes e chegava por volta da hora de almoço à
capital da Beira Alta. O regresso às origens acontecia noite dentro, bem depois
da hora de jantar. Mas esta carreira não seria para aqui chamada se não
houvesse uma particularidade. Uma especificidade que ainda hoje tenho
dificuldade em compreender. O motorista era sempre, sempre, o mesmo. O senhor Zé. Todos os dias, anos e anos a fio e sem meter férias. Sim, a ACT** não existia e as
carreiras não tinham disco de controlo dos horários de trabalho.
Falta dizer-vos que este texto - inspirado em duas empresas de transporte de passageiros que operavam e ainda operam no concelho de Sátão, a União de Sátão e Aguiar da Beira e a Berrelhas - pode servir para o que quiserem; para mim serviu para efetuar uma audiência à memória e também para homenagear os pioneiros e continuadores destas duas (e de tantas outras) empresas de camionagem que fizeram e fazem parte do imaginário de tantos de nós. E se este guião não bater exatamente certo com o vosso bastará substituir os nomes das localidades e das empresas e, facilmente, ver-se-ão dentro do filme!
* PVT – Polícia de Viação e Trânsito.
** ACT - Autoridade para as Condições de Trabalho.