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Agostinho Ribeiro, diretor Museu Nacional Grão Vasco: Gostaríamos de atingir as 100.000 visitas neste ano do centenário

Entrevista DÃO E DEMO a Agostinho Ribeiro no dia em que se perfazem dois anos sobre o início de funções no Museu.
Agostinho Ribeiro, 58 anos, diretor do Museu Nacional Grão Vasco, desde 1 de fevereiro de 2014, é o nosso convidado para mais uma entrevista Dão e Demo.
Com uma vida intensa de dedicação ao património, à museologia, à museografia, Agostinho Ribeiro é hoje um profundo conhecedor e um dos grandes expoentes nacionais nestas importantes áreas da cultura.
Foi diretor do Museu de Lamego durante 20 anos, de 1992 e 2012, e foi autor e coautor, entre 2000 e 2010, de programas museológicos de inúmeros museus da região – Museu da Casa de Mateus, de Vila Real, Museu Municipal de Resende, Museu de Lamego e Museu Diocesano de Lamego.
Agostinho Ribeiro presidiu também à Comissão Instaladora do Museu da Região do Douro, tendo coordenado os trabalhos de organização e regulamentação daquele projeto museológico (1999-2000).
Foi coautor do currículo do Curso de Estudos Superiores Especializados (CESE) de Museologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viseu / Escola Superior de Educação (1993) e coordenou a criação, organização e desenvolvimento do Serviço Educativo do Museu de Lamego (1979/1986).
Também programou e coordenou a área pedagógica do Curso de “Animadores Locais de Turismo”, Região de Turismo do Douro Sul/IEFP (1988), bem como programou os Cursos de Cantaria Artística e Jardinagem Urbana, Câmara Municipal de Lamego/IEFP (CPC - Conservação do Património Cultural) 1989, programou e coordenou o Curso de Técnicos Auxiliares de Conservação e Restauro de Talha Dourada, Núcleo de Ação Cultural de Lamego/Museu de Lamego, FSE/CCRN (1993) e programou e coordenou os Cursos de Técnicos Auxiliares de Conservação e Restauro de Têxteis e Mobiliário, Museu de Lamego/IPM, IEFP (CPC - Conservação do Património Cultural)/Instituto José de Figueiredo (1994/1995).
Participou em múltiplos cursos, encontros e congressos (museologia, museografia e património), tendo proferido diversas comunicações e tem igualmente vários trabalhos publicados relacionados com o Museu de Lamego, o Museu Nacional Grão Vasco e Região do Douro.
Tem desempenhado, também, funções docentes no ensino básico, médio e superior, bem como em cursos de formação profissional.
É, pois, com Agostinho Ribeiro, neste dia em passam dois anos sobre a sua posse como diretor do Museu Nacional Grão Vasco e neste ano em que se assinala o centenário da sua fundação, que iremos conversar a partir de agora.

“Museu Nacional Grão Vasco… foi um desejo acarinhado unanimemente por todos os quadrantes sociológicos e políticos”


Dão e Demo: A classificação do Museu Grão Vasco em Museu Nacional Grão Vasco foi uma das principais tarefas que o diretor Agostinho Ribeiro abraçou mal chegou à instituição. Missão cumprida?
Agostinho RibeiroOrgulho-me de forma muito especial por termos alcançado tão justo quanto fundamental objetivo estratégico para o Museu e para Viseu. Missão cumprida, com a ajuda de todos os que desde a primeira hora entenderam a importância que esta qualificação teria para a maior afirmação do nosso Museu, no plano nacional e internacional. O requerimento que tive o privilégio de assinar como diretor desta instituição citava, a dada altura, o mestre Aquilino Ribeiro, quando referia, nos idos de 1937: “O que é o Museu Grão Vasco? O Museu Grão Vasco não é Viseu; não é Beira. É Portugal. Mais que Portugal é o mundo, pois que a arte tem feição ecuménica. Regional é o apenas no rótulo que oficialmente lhe deram. De facto, museu regional implica arte regional, arte particular, sui generis. Em país uno, indiviso, nada de nada compósito como o nosso, poderá florir esta planta? Ainda que se confinasse no papel de repositório etnográfico, à parte a explicação que lhe poderia trazer a geografia, seria coisa impossível.” (RIBEIRO, Aquilino – O Museu Grão Vasco, in Almanaque Bertrand, 1937, pg. 78.)
Mais palavras são dispensáveis, porquanto aqui se encontra a síntese nuclear do que Viseu pretendeu alcançar com tamanha distinção, em boa hora aceite e aprovada pelos decisores tutelares, a 18 de maio de 2015, exatamente no Dia Internacional dos Museus. Não poderia ter havido melhor data, e mais simbólica, do que esta! Foi uma honra para todos nós, sabendo-se ainda que foi um desejo acarinhado unanimemente por todos os quadrantes sociológicos e políticos, em inequívoca demonstração do sentido de plena posse e pertença que este Museu provoca na cidade e região de Viseu.

DD: Este ano de 2016 assinalam-se os 100 anos da fundação do Museu Nacional Grão Vasco. Qual a sensação de se ser o diretor nesta data marcante para o Museu e para a região?
ARUma sensação de enorme responsabilidade, que não enjeito. Antes pelo contrário, assumo este tremendo dever com muita satisfação e empenho, dando o máximo de mim para que este meu exercício de direção, no período em que o Museu comemora os seus cem anos de existência, esteja à altura do valor artístico e patrimonial do nosso Museu. Por isso mesmo estamos desde o início a preparar uma programação, que consideramos de excelência, para as comemorações do centenário. Estas comemorações decorrerão ao longo do ano, e estamos certos que constituirão múltiplos e diversificados polos de atração para os mais diversos públicos que ao Museu acorrem.

DD: Qual o programa que está preparado para assinalar o centenário? Quais as entidades envolvidos nestas comemorações?
ARPreparámos mais de cinquenta eventos comemorativos, entre exposições, congressos científicos, performances artísticas, concertos multiculturais, cruzando a história, a arte, o património e as artes de palco, entre o passado e a contemporaneidade, de maneira a que todos se pudessem rever, tanto quanto nos é possível conceber, em alguma ou algumas das nossas iniciativas programáticas.

“…o nosso museu não trabalha apenas para a comunidade, mas sim com a comunidade…”

DD: O Museu Nacional Grão Vasco tem estado com uma vasta dinâmica de organização e coorganização, com diversas instituições do concelho e da região, de eventos e de iniciativas. Isso corresponde à visão que tem sobre a função dos museus? Fale-nos um pouco dessa interação.
ARFoi uma decisão estratégica assumida muito conscientemente desde o início da nossa direção. A ideia da integração e da interação, fazendo com que o sentido da partilha e das iniciativas conjuntas tivessem lugar no museu, e fora dele. Por isso mesmo, protocolámos já formas de colaboração com mais de cinquenta entidades, públicas e privadas, associativas e empresariais, artísticas, sociais e culturais, na maioria dos casos sediadas na cidade e região de Viseu, fortalecendo os laços de cumplicidade operativa com tais entidades e associações. O resultado tem sido excelente e se há uma marca nas nossas comemorações é exatamente essa – a partilha e colaboração entre as múltiplas entidades que connosco programaram e agora executam os projetos mais emblemáticos das comemorações do centenário.
Entramos já no momento em que o nosso museu não trabalha apenas para a comunidade, mas sim com a comunidade. Faz todo o sentido que assim seja e é muito desejável que assim continue a ser por todo o tempo que fará o futuro desta instituição museológica.
                                  
DD: O Museu é uma das principais âncoras do centro histórico de Viseu pela atração que exerce sobre as pessoas. O número de visitantes nacionais e estrangeiros tem vindo a aumentar? Quais os números? Quais as faixas etárias dos visitantes?
ARTemos verificado, com enorme satisfação que o afluxo de visitantes não para de aumentar, tanto no que respeita a nacionais como a estrangeiros. De um modo geral, registamos um aumento de visitantes na ordem dos 16 %, de 2013 para 2014 (68.929 – 80.241) e agora na ordem dos 8 % de 2014 para 2015 (80.241 – 86.371). É um crescimento constante e sustentado, numa relação que podemos estabelecer, genericamente, de 80 % para visitantes nacionais e 20 % para estrangeiros, resultados que nos agrada muito registar. Pensamos que a tendência será para continuar esta linha ascendente, e muito gostaríamos de atingir a fasquia dos cem mil visitantes no ano centenário da existência do nosso Museu. Estamos muito esperançados que assim venha a ser!

DD: As escolas da região têm por hábito efetuar visitas de estudo ao Museu?
ARSe há núcleo fundamental nos públicos-alvo do nosso Serviço Educativo ele é, precisamente, o das escolas da região. Queremos registar aqui o grande esforço despendido pelo nosso Serviço Educativo que, para o ano centenário, preparou um plano específico de temas a abordar em contexto de visita guiada. São temas devidamente estruturados, com reais possibilidades de adaptabilidade, em função dos níveis etários a que se destinam. Esta realidade espelha também a enorme dedicação dos nossos serviços na produção de conteúdos pedagógicos destinados a este tipo muito especial de público, o que muito nos agrada registar.
Este projeto do Serviço Educativo do Museu, que contempla 16 ofertas temáticas para visitas e explorações pedagógicas adaptadas aos diversos níveis etários e grupos socio profissionais, está organizado como segue, genericamente:
1 – Grão Vasco, um pintor inovador; 2 – Cerâmica: forma, função, decoração; 3 – Tesouros do Museu: 22 obras excecionais; 4 – À volta do Retábulo: Padrão e Perspetiva; 5 – Na cadeira de São Pedro; 6 - Viagem ao Oriente no séc. XVI; 7 - Columbano e “Os Lusíadas”; 8 – Xadrez no Museu; 9 – Vejo, oiço e sinto: A Natureza na pintura; 10 – Obras para ver e ouvir; 11 – Bichos na Seda; 12 – Natureza-morta? Ou viva?; 13 – Obras vistas à lupa; 14 – Santos da Casa: Quem são e como são feitos?; 15 – Como se chama e para que serve? Oito obras de arte do Museu Nacional Grão Vasco; 16 – Da origem das cores ao colorido na pintura.
O objetivo fundamental com estas propostas educativas é o de “aumentar o interesse e o gosto artístico, desenvolver diferentes competências e despertar emoções” em cada participante.

DD: Fale-nos do espólio e das “joias da coroa”.
ARO espólio do Museu Nacional Grão Vasco é muito eclético e tipologicamente diversificado. Desde a imaginária (escultura) do período medieval ao moderno (séculos XIII/XIV ao século XX), mobiliário de função, artes decorativas, utensílios de culto, pintura, sobretudo ilustrativos do barroco nacional (séculos XVII/XVIII), até aos modernos, onde se destaca a nossa belíssima e importante coleção de pintura do naturalismo português, fruto do trabalho dedicado do primeiro diretor do Museu, Almeida Moreira, um viseense de exceção. Em tudo podemos reconhecer um acervo de inexcedível valia, a merecer demorada(s) visita(s) para fruição de tanta e tão diversa qualidade artística e patrimonial.
Mas não restam dúvidas que o núcleo central da coleção do Museu Nacional Grão Vasco é a que resulta das obras-mestras do pintor que lhe dá o nome, o incontornável pintor do pré-renascimento e do renascimento português, Vasco Fernandes. É aqui, em Viseu e no nosso Museu, que podemos apreciar as obras maiores deste vulto da arte nacional, balizadas precisamente entre o início da sua carreira artística, na parceria que teve no Retábulo da Sé de Viseu (1501-1506) até às pale que foram encomenda desse grande vulto do Renascimento português, o Bispo de Viseu D. Miguel da Silva (1526-1547), e que corresponde ao final, também, das obras maiores do génio da pintura portuguesa do renascimento nacional – Grão Vasco, com relevo mais que justo à imponente e magnífica pala que nos retrata o primeiro Papa da Igreja Católica, o famoso e emblemático “São Pedro” (1529).

“…a requalificação [de Souto Moura] colocou o Museu Nacional Grão Vasco nos lugares cimeiros dos museus portugueses…”

DD: O Museu teve uma profunda requalificação há mais de uma década atrás. Há necessidade de uma nova intervenção ou o Museu ainda está funcional à luz dos novos conceitos museológicos?
ARA intervenção referida ocorreu entre 2001 e 2004, e foi da responsabilidade do premiado Arquiteto Souto Moura (Pritzker 2011). Em termos muito genéricos, contemplou as mais importantes áreas que museologicamente devem ser consideradas, e que caracterizam um museu contemporâneo, na multiplicidade funcional que estas estruturas culturais representam. Em todo o caso, e em face das limitações espaciais próprias da edificação preexistente, detetam-se alguns constrangimentos que não têm solução, à luz dos referidos condicionalismos mas, no cômputo geral, esta requalificação colocou o Museu Nacional Grão Vasco nos lugares cimeiros dos museus portugueses, no que respeita à sua configuração arquitetónica, ao nível do que de melhor se tem feito no mundo.

DD: Finalmente, vamos ter Agostinho Ribeiro como diretor do Museu Nacional Grão Vasco até quando?
ARComo é sabido, os cargos de diretores de museus do Estado são providos após concurso público, em regra renovados por períodos sucessivos de comissões de serviço, se razões poderosas a não contrariar (à regra), e sempre no cumprimento escrupuloso dos termos da lei. Não estou muito preocupado agora com esse aspeto, uma vez que estou completamente focalizado na boa concretização do Programa das Comemorações do Centenário do nosso Museu Nacional Grão Vasco, como me compete fazer. Depois, logo veremos o que vai acontecer.

DD: Muito obrigado por ter acedido a este nosso pedido de entrevista e felicidades no desempenho das suas funções tão importantes para Viseu, para a região e para o país neste ano em que o Museu Nacional Grão Vasco comemora os 100 anos da sua fundação, precisamente no dia 16 de março.
AR: Muito obrigado pela gentileza da oportunidade que nos dão, de podermos divulgar um pouco mais este magnífico Museu Nacional, e tudo quanto ele representa na cultura da região e de Portugal.

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