Texto de Elisabete Bárbara na apresentação do livro O VOLFRAMISTA que teve lugar no dia 22 de janeiro no cineteatro de Sátão.
A apresentação de um livro é, antes de mais, um momento de
festa e de celebração de uma nova vida – a obra que nasceu do desejo, da
imaginação e do trabalho do seu autor – e que nos chama a partilhar da emoção e
da alegria que os nascimentos sempre trazem consigo. Nada nos emociona mais do
que um nascimento, nada dá mais sentido à vida do que dar-lhe vida através do
que nela vamos fazendo nascer por força do nosso amor e da nossa vontade. Assim
é um livro, quando nasce: o fruto amoroso da vontade de quem o sonha, de quem o
pensa, de quem o escreve, de quem no-lo oferece.
Assim, a apresentação de um livro é o momento em que partilhamos
com o seu autor a enorme felicidade do nascimento da sua obra e em que nos
associamos à generosidade do seu trabalho através da presença, através das
palavras, através da leitura. A apresentação de um livro é sempre um convite
para a sua leitura, para embarcar na viagem de que é simultaneamente chamamento
e destino. A apresentação de um livro não é a viagem, é a véspera desse
maravilhoso e entusiasmante acontecimento que é conhecer uma nova história e
entrar no mundo – nos mundos – que ela concebe, consolida e guarda. É a estação
ou o cais em que o leitor aguarda a hora da partida, ansioso pela descoberta
dos caminhos, dos lugares e das paisagens que se vão abrindo como flores de
novidade à medida que as palavras vão surgindo, sem saber que aventuras e
emoções vai ser chamado a viver. Ou a sentir, pois que não há outra forma de
viver.
Este é O Volframista, que cada um dos presentes
é chamado a ler e a enriquecer com a sua leitura. Tantas as leituras quantos os
leitores. Não vos quero – nem poderia ou conseguiria – tirar o prazer da
descoberta, a surpresa do inesperado e o deslumbramento da revelação, nem
influenciar as vossas impressões ou antecipar olhares, apenas trazer aqui a
minha leitura – ou alguns traços da minha leitura – desta obra que é tão
simples quanto complexa, tão ficcional quanto real e histórica, tão local
quanto nacional e universal.
Se, por um lado, a obra encontra a sua simplicidade numa
escrita bonita, limpa e despretensiosa, com as palavras exatas e sem a
artificialidade do exagero linguístico e estilístico, por outro revela a sua
complexidade na construção narrativa, hábil e talentosamente desenvolvida
através do recurso a várias analepses, cada uma delas abrindo uma porta com
vista gradual para o passado, do mais próximo para o mais longínquo.
A história começa na altura do Euro 2016, 10 de julho –
Jorge Fernandes (19 anos) tem um acidente ao volante de um Renault Twingo,
tendo ido contra um Citroen C1, conduzido por Bernardette. Passadas as
peripécias relacionadas com esse acidente e com o internamento de Jorge, as
personagens marcam um encontro para o dia 6 de agosto, em que a personagem
masculina diz que a família é da aldeia dos Rosmaninhos, perto de Viseu, e
Bernardette diz que o avô da mãe também é da região de Viseu.
Depois desta introdução, recuamos no tempo até ao momento em
que Abel Fernandes, o protagonista, vai visitar o cunhado, Manuel dos Santos,
nos Rosmaninhos, para saber da mulher, Celestina, e dos dois filhos, Frederico
e Afonso, que tinha deixado para trás aquando da sua fuga para Paris, em 31 de
dezembro de 1944, aos 28 anos.
Após este reencontro de Abel Fernandes com o cunhado,
recuamos então até esse último dia de 1944 e seguimos a personagem até à quinta
nos arredores de Paris onde começa a trabalhar em janeiro de 1945.
É aqui que recuamos mais uma vez, agora até 1940, ano em que
o protagonista vai trabalhar para as Minas de Lugares, na freguesia da Cabriga,
concelho de Vilar do Paiva, tendo sido escolhido para ser o encarregado pelo
trabalho dos mineiros nas galerias. É em novembro de 1940 que descobre
volfrâmio e em março de 1941, conseguido o alvará necessário para o efeito, tem
início a sua exploração e tem também início a nova vida de Abel Fernandes,
agora como empresário. Na qualidade de novo-rico, transfigura-se: não só muda
de roupa, como também o seu caráter se altera, movido pela vaidade e pela
ostentação, como é disso prova o episódio da mortalha feita de uma nota de 100
escudos.
Em julho de 1941, já tinha 23 trabalhadores na Mina das
Vinhas. No início de 1942, mais de 30 trabalhadores; conheceu aquele que viria
a ser o seu sócio, Alberto Farinha; o negócio estava em expansão e a sua vida,
ao que parecia, de vento em popa. No entanto, o mesmo vento resolveu mudar de
direção e inflamar as chamas que haveriam de reduzir a nova e luxuosa casa de
Abel e Celestina a cinzas. E é precisamente este incêndio que marca, também
pelo simbolismo de que se reveste, a de um homem consumido pelo poder e pela
ganância, a enorme reviravolta que se vai operar na vida de sucesso de Abel
Fernandes.
Não avanço mais neste ponto, apenas dizer que, se quiserem
conhecer com pormenor e rigor as razões que levaram Abel Fernandes a fugir para
França, no tal 31 de dezembro de 1944, terão de ler o livro e viver todas as
peripécias e todas as emoções que vos esperam, e são muitas.
A forma como o autor, através do seu narrador, trabalha o
tempo é extraordinária. Não só pelas analepses que agora ficaram evidentes,
reforçadas pela estrutura circular da diegese, que não só representa perfeição
como destino, união ou aliança – na verdade, a história começa com Jorge e
Bernardette e é com o seu casamento que termina, em setembro de 2017, estando a
noiva grávida de um menino a que será dado o nome de Abel. Acresce a este
dinamismo narrativo e a esta capacidade de intercalar momentos a originalidade
com que o narrador vai doseando a informação, de forma a conseguir provocar no
leitor, sem que nada o deixe suspeitar ou prever, reações de incredulidade e de
espanto; de facto, não avançando logo com todas as informações de que dispõe –
sob a cumplicidade do jogo temporal de avanços e recuos – o narrador
omnisciente usa habilmente o seu conhecimento para, sabendo aguardar pelo
momento oportuno, o desarmar com revelações absolutamente inesperadas, como é o
caso da relação inimaginável que se veio a estabelecer entre o episódio do
rapto do motorista de uma camioneta transportadora de volfrâmio ocorrido em
Coimbra e Alberto Farinha, o sócio de Abel Fernandes, e mais não digo, que quem
não estraga surpresas não merece castigo.
Para além do jogo temporal, também o jogo entre a ficção e a
realidade confere complexidade à obra: na verdade, a base de que o autor se
serve é factual e histórica – recorrendo, várias vezes, a documentação ou a
testemunhos para a sustentar ou explicar, o que deixa também perceber, em minha
opinião, a natural inclinação do autor para a pesquisa e para a investigação,
sobretudo nos domínios da História e da Geografia – e não só local, mas
nacional e universal, uma vez que a ação central decorre no período da Segunda
Guerra Mundial. Acresce assim ao texto, para além do valor literário, o valor
documental, que o enriquece e consegue dificultar ou brincar com o
estabelecimento de fronteiras precisas entre a realidade e a ficção, situação
que, segundo me parece, diverte o autor, até pela forma provocadora como se
dirige aos leitores na sua Advertência, piscando-lhes o olho para os convidar a
entrar no jogo entre o Foi assim e o Era uma vez.
Para esta (con)fusão entre realidade e ficção, muito
contribui a cartografia, a toponímia e outros referentes ou realia:
se ficamos sem saber muito bem – ou saberemos? – onde fica Douro Alvo, Sesmilo
ou Cabriga, nem nunca apanhámos a carreira da União de Santos Idos e Vilar da
Beira ou comprámos alguma vez uma bicicleta ao senhor Coutinho, a verdade é que
conhecemos a Casa da Ribeira (ou uma Casa da Ribeira) e a Garagem Lopes (ou uma
Garagem Lopes), em Viseu. E, naturalmente, quando lemos o seguinte passo
«Recorde-se que, nos anos 40, a vila de Santos Idos, sede do concelho com o mesmo
nome, era um pequeno aglomerado que se desenvolvia, num raio de uma escassa
centena de metros (…) uma igreja românica onde pontificou, no século XX,
durante mais de 50 anos, um padre, Albano de seu nome» (p.56), todos nós
sabemos onde estamos e reconhecemos nessa referência a evocação do patrono
deste prémio literário e que hoje, aqui, também homenageamos.
Muito mais poderia ser dito ou explorado sobre este
riquíssimo e extraordinário texto: a caracterização das personagens (para as
quais concorre a linguagem que usam); os quadros de vida – ou retratos do país
– como acontece, por exemplo, com a descrição dos domingos à tarde nas tabernas
ou com a menorização do papel da mulher face ao domínio do marido, por quem é
agredida; as cenas de envolvimento amoroso e os jogos de sedução como símbolo
de aprendizagem do novo e de si face aos outros, introduzindo uma nota de
erotismo nas vivências das personagens.
Há, no entanto, um trecho que me prendeu especialmente, que
me perturbou, não só pelo que conta, mas por aquilo que representa ou
significa. Por questões de exploração e de rentabilização do negócio do
volfrâmio, Abel Fernandes comprou os terrenos contíguos ao terreno onde
descobrira o inesperado filão, mas encontrou sempre resistência junto do senhor
Paulo, que se recusava a vender o seu. O excerto é o seguinte (pp.97-98 do
livro):
«– Tu vais desgraçar a nossa vida! Tu vais desgraçar a nossa
vida! Não faças isso – suplicava-lhe a mulher, agarrando-se à sua camisa. (…)
Respirando fundo e, depois de medir bem as distâncias, dirigiu-se a Abel
Fernandes desferindo-lhe, de supetão, uma sacholada que só o atingiu nas
costas, e não na cabeça, devido aos felinos reflexos deste.
Acorreram, de imediato, dois trabalhadores que imobilizaram
o senhor Paulo e, de seguida, outros dois levantaram Abel Fernandes que,
entretanto, se rebolara pela escombreira paras fugir de novas investidas. A
GNR, quando chegou, tomou conta da ocorrência e apresentou o senhor Paulo
ao juiz, no Solar dos Cáceres, em Santos Idos, onde funcionava o tribunal.
Dois dias depois, ante a intervenção do filho do arguido, e
com a retirada da queixa por parte da vítima, face à anuência da venda do
terreno, que de imediato se concretizou, o agressor acabou por ser libertado da
cadeia de Santos Idos, localizada mesmo por detrás da Igreja de Santa Maria,
bem próxima do tribunal.
Todavia, o senhor Paulo não conseguiu digerir completamente
esta situação e, no dia de Todos os Santos, a sua mulher foi encontrá-lo
enforcado, numa pernada de um secular carvalho alvarinho, no quintal da sua
casa. Estava suspenso pelo pescoço. A corda utilizada foi a mesma com que
amarrava as enormes carradas de centeio e de caruma que transportava no carro
de bois. (…)
Por debaixo do corpo em suspensão, estava deitado, ao lado
do chapéu preto que lhe caíra da cabeça, o seu cão, o Nero, um pequeno rafeiro
castanho que sempre o acompanhava para todo o lado. Dormia, enquanto aguardava,
em vão, a voz de comando do seu dono.» A formulação «A corda utilizada foi a
mesma com que amarrava as enormes carradas de centeio e de caruma que
transportava no carro de bois.» é extraordinária, profunda na mensagem que
transmite. A terra era o prolongamento humano da personagem, a sua extensão, a
sua vida. Por isso, antes de morrer, já a tinha perdido. O facto de o senhor
Paulo se ter enforcado com a mesma corda com que amarrava as carradas de
centeio e de caruma – a mesma com que segurava a vida e com que se segurava à
vida – representa não só a sua íntima ligação ou identificação com o seu
trabalho e com o fruto do seu trabalho como também a consciência de que o fim
não é a morte, mas a perda dos valores pelos quais se tinha batido toda a vida
e que nada puderam contra o valor do dinheiro, que é, como outra personagem diz
a certa altura a Abel Fernandes, o «deus da terra». Aquela corda conhecia as
suas mãos, conhecia as suas mãos como ninguém; não lhe faltaria uma última vez.