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Entrevista de Acácio Pinto ao Jornal da Beira a propósito de "O Volframista"


Na sequência do prémio literário Cónego Albano Martins de Sousa atribuído à obra "O Volframista", de Acácio Pinto, a jornalista Emília Amaral, do Jornal da Beira, conduziu a entrevista que de seguida transcrevemos.

EMÍLIA AMARAL - Qual é a importância de conquistar o Prémio Literário Cónego Albano Martins de Sousa? Tendo sido o padre um homem de causas…

ACÁCIO PINTO - A importância tem a ver com o facto de vermos a nossa obra ser apreciada e reconhecida, sob anonimato, por um júri especialmente competente, composto pela diretora do Agrupamento de Escolas de Sátão, Helena Castro, por um autor reconhecido, Carlos Paixão, e pela vereadora da Câmara Municipal, Zélia Silva.

Quanto ao patrono do prémio, o padre Albano foi um homem que deixou muitas saudades no Sátão, uma paróquia a que se entregou, de alma e coração, durante mais de cinco décadas.

EA - Foi a primeira vez que concorreu?

AP - Sim, de facto esta foi a primeira vez que submeti uma obra a este concurso literário que o Município de Sátão vem promovendo há vários anos.

 EA - A obra é uma prosa de ficção sobre um tema que diz muito a esta região de Viseu. O que o inspirou a escrever O VOLFRAMISTA?

AP - A inspiração para esta obra teve origem num facto verídico que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial: a fuga para França de um cidadão do concelho de Sátão devido a negócios de volfrâmio que deram para o "torto". Com base neste facto foi construído o texto com personagens ficcionadas que agem e interagem num tempo histórico bem definido e que têm como geografia as Terras do Demo, para utilizar a expressão de Aquilino Ribeiro.

EA - O que nos diz “O Volframista”? E que mensagem nos transmite?

AP - O Volframista fala-nos do quotidiano rural em Portugal nos anos quarenta do século passado e da vida difícil que as pessoas tinham nessa época, sob uma governação austera e dura conduzida por Salazar, em que os racionamentos de alimentos e a repressão eram o pão-nosso-de-cada-dia. Fala-nos ainda da vida nas minas de volfrâmio, que abundavam em Portugal e na região de Viseu e dos negócios clandestinos desse "ouro negro", que muitos portugueses, como foi o caso do volframista, personagem principal da obra, levavam a cabo com ingleses e alemães.

EA - As personagens embora ficcionadas contarão uma realidade que os mais novos não conhecem? Pode ser um documento de alguma forma histórico?

AP - Sim, sem qualquer dúvida que este romance assenta numa base histórica, tão fiel quanto possível, e os diálogos das personagens e os espaços têm a ver com o mundo rural português, mais concretamente da Beira Alta, o que poderá, de facto, proporcionar aos mais jovens o conhecimento dessa realidade.

Creio que sim, com este substrato, o livro poderá constituir um documento de época, sobre a evolução das hostilidades durante a Segunda Guerra Mundial e a sua relação com Portugal, que haveria de se tornar o principal fornecedor de volfrâmio aos dois lados da guerra. Refira-se que a importância do volfrâmio radicava no seu elevado ponto de fusão e era consequentemente um metal imprescindível para o fabrico de armamento.

EA - Como cria estas personagens perante um tema real?

AP - Há personagens verídicas que são chamadas ao texto para enquadramento da época e personagens ficcionadas que, assentando em pessoas que viveram à época, o autor quis "distorcê-las", por opção, para ter liberdade de as colocar em diálogo e a tomarem decisões diversas sobre as suas vidas sem estarem amarradas a qualquer factualidade histórica.

EA - Quais são as influências, em termos de autores, mais visíveis nesta obra? O nome da obra vencedora faz lembrar Aquilino Ribeiro!

AP - Levantando um pouco o véu, sim Aquilino está muito presente na obra, havendo ligações e cumplicidades entre personagens de Lamas do Vouga (lugar ficcionado) e o escritor. Porém, prefiro dizer que reli o livro “Volfrâmio” de Aquilino Ribeiro, e li, entre outros, livros e artigos de opinião de Avelãs Nunes, investigador da Universidade de Coimbra, de que destaco “O Estado Novo e o Volfrâmio”, li as memórias da Segunda Guerra Mundial, de Churchill e li um livro de Fernando Vale sobre as Minas da Bejanca, uma edição da Câmara de Vouzela. Para além disso ainda vi uma série da RTP, de 2001, disponível online, sobre “A febre do ouro negro”, com 13 episódios e que recomendo a quem se quiser enquadrar com a temática e a época.

EA - O que mais o inspira a escrever?

AP - A liberdade que a escrita de ficção nos dá para criarmos os mais diversos e singulares cenários e personagens. E, para além disso, proporciona a quem escreve, viagens aos limites da criatividade e o teletransporte a tantas geografias sentimentais.

EA - Já com vários livros publicados, tem projetos para o futuro no campo literário?

Publiquei, até esta data, cinco livros, que passam pela investigação, pela prosa e pela poesia.

Quanto ao futuro, embora estando a escrever, não há ainda um projeto literário com contornos completamente definidos, mas oportunamente o seu rosto vai começar a ficar definido.

Entrevista publicada na edição do Jornal da Beira de 21 de julho de 2022

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