Fixem este nome: Zacarias. Depois metam pés à estrada, pela EN 229, e vão até Cavernães. Ali a dois passos de Viseu.
Bem sei que não encontrarão um edifício daqueles modernos.
Envidraçados. Com paredes recobertas de aço e de madeiras da floresta
equatorial.
Sim, é isso, encontrarão um edifício, tradicional da Beira,
de granito. Granito dente de cavalo, bem moreno, fruto dos anos que já carrega.
É ali o Zacarias. Um restaurante que assume a nomenclatura
do seu proprietário, Zacarias Bernardo, de 60 anos, ele que foi discípulo de
dom Zeferino! Esse mesmo, o do antigo Cortiço. E, para além disso, um português
que soube aprender ainda mais na interação com outros sabores e outras culturas,
quando, emigrante, trabalhou nesta mesma arte, Europa fora.
Ali chegados, entrem! E depois da primeira sala, para um
serviço mais rápido, demandem (por reserva, pode dar-se o caso de estar cheia)
a sala mais interior. Mais genuína, rústica e aconchegada, onde as sensações
acontecem mais fortes.
Vejam a ementa, mas não escolham! Deixem-se guiar.
Entreguem-se ao mestre. Sigam as sugestões de Zacarias Bernardo.
E quando começar o serviço, sugerimos que não levantem muito
a voz. O tempo agora vai ser de inalar. De inalarem os odores dos vinhos, sejam
Dão ou Douro, e de se inspirarem nos manjares que espreitam.
Depois, em silêncio, em respeito pelo santuário em que se
encontram, saboreiem. Podem antes afinar, se quiserem, as papilas. Garanto-vos
desde já que a sinfonia, em quaisquer tons que a toquem, será mais que
perfeita.
Bola de carne e cogumelos. Bem húmida! De estalar a língua!
Haverá melhor início?
E a seguir? Arroz de tamboril com gambas. Duas voltas na
boca. Fechem os olhos. Recuem e peçam meças a qualquer um que antes tenham
comido! Com certeza: este foi o melhor.
O pernil? Esse é um dos expoentes. Já há aqueles que ali vão
em romaria no dia do pernil. Levantam-se cedo ou marcam de véspera, não se dê o
caso de não haver já lugar.
Sim, agora podem falar. É tempo dos ‘fiéis’ adjetivarem/classificarem
a experiência até ao momento. Se encontrarem, claro está, o atributo
superlativo! Um trabalho difícil, garanto-vos!
Entretanto, para além das batatas assadas e dos legumes que
acompanham, deliciem-se, igualmente, com o spaghetti
ratatui com curgete e beringela! Vegan! Uma, tão simples, delícia. Quem
diria?
E o arroz de cogumelos silvestres do Zacarias? Este é de
causar furor! Já esteve na final do melhor arroz de Portugal. Servido com iscas
de fígado de vitela, grelhadas, ou com entrecosto e barriga de leitão assada no
forno! Só mesmo saboreando!
Mas adiante. Que hoje não podemos ser avaros com o palato e
intransigentes com a balança!
A sobremesa espreita! E aqui surge um novo drama: Qual
escolher?
Sugerimos aquela que faz descer os deuses do Olimpo: a tarte
de ameixa com molho de frutos silvestres, servida na pedra de xisto. E se
gostarem, que é o meu caso, coloquem a tarte e o café em interação!
Bem sei que ainda não falei de quem dá as voltas à massa.
Afinal quem é o chef?
Vão ficar admirados, mas não há chef! Há sim, a dona Maria
de Lurdes! E não, não é chef! É cozinheira e é cinco estrelas.
É daquelas de antigamente, do tempo em que se faziam os
torresmos na sertã de ferro negra (qual frigideira!) e se as papas de ralão na
panela de ferro ao lume, nas cozinhas escuras. É um encanto vê-la, mas
sobretudo o que é encantador é saborear estes seus conteúdos.
Mas para os neófitos falta ainda o ritual de saída. Um licor
caseiro, gelado, que se bebe de uma rajada.
É o xiriripiti, como lhe chama o Zacarias. É o batismo dos
debutantes! A receita: é segredo!
Ah, depois não se esqueçam de pagar. Com exceção de ficar a lavar
pratos, a modalidade de pagamento escolhe-a o cliente, em dinheiro ou com cartão.
E verá que no Zacarias até a “dolorosa” é bem simpática!
Restaurante Zacarias
Rua Principal nº14
Cavernães – Viseu
Serve almoços de 2ª a 6ª feira.
Nota: Como quem vai uma vez volta, da próxima, experimente a mesma
qualidade com outros sabores: Bacalhau das Ilhas Faroé com broa, no forno;
bochecha de porco; polvo à lagareiro, borreguinho…E sobremesa? Maçã assada com
gelado; panacota com frutos silvestres; queijo serra da estrela com marmelada…