sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Crítica de Cinema | Star Wars: O despertar da força (2015)

Crítica DÃO E DEMO
***
(Vale a pena)
Star Wars: The Force Awakens (2015) | Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac | Realizado por J.J. Abrams | 135 min.
Por: José Pedro Pinto
Os receios afinal não tinham razão de ser: O Despertar da Força é o primeiro filme em 32 anos a merecer o nome Star Wars, e se foi preciso a Disney comprar a Lucasfilm por quatro mil milhões de dólares para podermos voltar a ver o Han Solo em ação, foi bem gasto. J.J. Abrams não só ultrapassou tudo o que tinha feito até aqui, como fez o impensável: o filme não só não desilude, como merece comparação com os filmes da trilogia original que, no meio do barulheira dos fãs, é fácil esquecer que são dos melhores filmes alguma vez feitos. É claro que não é tão bom como esses, nem seria de exigir tal coisa, mas é um belíssimo filme mesmo para quem nunca os viu, e uma maravilha para quem os conhece.
BB-8, um pequeno dróide com uma personalidade excêntrica, tem na sua posse planos que podem determinar o resultado da guerra entre a Resistência e a Primeira Ordem. Deambulando pelo deserto, acaba por dar com Rey (Daisy Ridley), uma órfã destemida que lhe inspira confiança, e com quem fica até ter a oportunidade de deixar os planos nas mãos certas. Quando a Primeira Ordem descobre a localização do dróide, a jovem vê-se inesperadamente envolvida numa guerra que ainda não entende. É certo que a premissa dificilmente poderia ser mais semelhante à do Star Wars – Uma Nova Esperança (1977), o filme que começou a saga, mas é tratada com uma frescura que invalida qualquer comentário negativo que possa fazer nesse sentido. Entretanto, o Stormtrooper FN-2187 (John Boyega) começa a questionar-se se está do lado certo da guerra depois da sua primeira missão sob o comando de Kylo Ren (Adam Driver), na qual lhe foi ordenado que executasse os habitantes de uma aldeia cheia de inocentes. Durante essa missão, a Primeira Ordem capturara Poe Dameron (Oscar Isaac), um exímio piloto da Resistência, e FN-2187 decide soltar o rebelde e fugir com ele, passando a ser procurado por traição. Por coincidência (ou por ação da Força), FN-2187, rebatizado de Finn, dá por si a ajudar Rey a escapar aos seus antigos companheiros, a bordo de um velho monte de sucata voador – a nave Millennium Falcon – que rapidamente é capturada pelos seus antigos donos – Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew). Juntos, tentam levar os planos à Resistência, para que esta possa encontrar um mítico guerreiro que ajudara a vencer as forças do Lado Negro décadas antes, e que estava desparecido há muitos anos – Luke Skywalker.
Admito que não estava convencido em relação à escolha de J.J. Abrams como realizador. Não havia dúvidas quanto à sua capacidade como produtor de projetos de grande porte, como provara com Perdidos (2004-2010), Missão Impossível 4 e 5, e principalmente com o seu reboot do Star Trek (2009). Mas nos poucos filmes que realizou, mostrara frequenemente que a sua excelência técnica era incapaz de impedir que os filmes fossem maçadores. No Super 8, o único filme dele antes deste que não me aborreceu (e o único escrito e realizado apenas por ele), mostrava a mesma excelência técnica, e a capacidade de nos dar personagens pelas quais podemos torcer, mas uma infeliz tendência a diferenciar tanto as cenas íntimas das cenas de ação, que às vezes pareciam tiradas de dois filmes diferentes, um deles bem melhor que o outro. Nenhum destes problemas estão presentes n’O Despertar da Força. A excelência técnica está intacta, as cenas de ação fluem das cenas mais calmas, e o filme não é maçador por um momento que seja.
No que toca aos atores, há muitas parecenças com os filmes originais. Logo a começar pela decisão de escolher dois atores desconhecidos – Daisy Ridley e John Boyega – para  interpretar os protagonistas, tal como Carrie Fisher e Mark Hammil o eram antes de interpretarem Leia e Luke Skywalker. Esses mais antigos não fizeram nada de memorável depois desses papéis, o que de certa forma ajudou a solidificar o estatuto mítico das personagens; veremos o que será feito destes novos – o potencial para boas carreiras está lá, sem dúvida. Outra coisa que é recuperada dos originais é Han Solo, e aí o crédito vai para Harrison Ford. É espantoso que nos consiga dar o mesmo Han que apresentou há 38 anos, como se nunca tivesse deixado de o ser. Há quem diga que Harrison Ford é o Han Solo em todos os papéis que faz, e que na verdade o Han Solo é o Harrison Ford. Talvez, mas neste caso não me interessa – temos o verdadeiro Han de volta. Infelizmente, não acho que possa dizer o mesmo de Carrie Fisher – pelo menos neste filme, a magia de Leia não estava lá. Ainda outra semelhança com o original: o vilão mascarado de respiração pesada, que se veste de negro e usa uma capa. Quando tem a máscara posta, é absolutamente convincente como uma ameaça, como um inimigo a temer; quando a tira, é o Adam Driver, com a sua cara de tonto (nada contra o ator, só contra o casting). Pode ser que o papel lhe assente melhor na sequela, agendada para 2017.
Poderá O Despertar da Força ter o mesmo impacto cultural que o Uma Nova Esperança? Não, mas é sem dúvida um Star Wars que criará novos fãs. Durante a sessão a que assisti, de tempos a tempos, uns senhores desceram as alas da sala, e não voltaram mais – quatro, no total. Estranhei, mas presumi que estivessem a ver um filme diferente do que o que eu estava a ver. No fim do filme, o tema glorioso de John Williams (que já não me há-de sair da cabeça durante uns dias) trovejava pelas colunas, acompanhando uma cena final absolutamente satisfatória e cheia de promessa para o que aí virá; mas assim que cortou para os créditos, logo mais uns quantos senhores e senhoras passaram por mim, de ambos os lados, descendo as alas em direção às saídas. Agora sim, tinha a certeza que não tinham estado a ver o mesmo filme que eu. Os créditos continuaram, e passou uma família – um miúdo de uns nove ou dez anos e, presumo, os pais. O miúdo, em vez de ir para a saída, separou-se dos pais, continuou sozinho a descer a ala até ao fundo, e foi-se sentar na primeira fila, onde ficou a olhar para os créditos a correrem; o pai juntou-se a ele pouco depois. Às tantas, o rapaz viu um filme ainda melhor do que o que eu vi – quem sabe se não viu o Star Wars que o pai terá visto com a idade dele.

(Foto: collider.com)
Crítica DÃO E DEMO

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