sábado, 3 de março de 2012

[opinião] Sim ao acordo ortográfico

Participei, recentemente, numa tertúlia sobre o acordo ortográfico que se realizou em Viseu no Lugar do Capitão, que foi promovida pelo Fernando Figueiredo, administrador do blog Viseu Senhora da Beira e que juntou no mesmo espaço um académico, deputados, jornalistas e viseenses interessados neste debate.
Fernando Figueiredo, o promotor, explicou com clareza a iniciativa, Fernando Paulo Baptista, o académico, dissertou de forma empolgada e competente contra o acordo ["SOS" pelas matrizes profundas da Língua Portuguesa], Joaquim Alexandre Rodrigues moderou bem, com a sempre condescendência democrática e eu próprio, Hélder Amaral e João Figueiredo, deixámos as nossas opiniões, mais pessoais que partidárias, sobre o acordo ortográfico e respondemos às inúmeras questões suscitadas pelos jornalistas e pessoas presentes.
Pela minha parte, coloquei desde o início a minha declaração de interesses em cima da mesa: sou a favor do acordo ortográfico.
Alguns dos argumentos que utilizei: i) lidar com duas ortografias oficiais da língua portuguesa é negativo e prejudica a unidade e o prestígio do português no mundo, nomeadamente nas instituições e nas academias internacionais; ii) uma grafia comum aos países da CPLP abrirá novas oportunidades ao mercado da edição em português; iii) a língua é uma entidade em permanente construção e evolução e em nenhum momento ela cristaliza; iv) depois de cem anos de divergências ortográficas (desde o acordo de 1911 que não foi extensivo ao Brasil) e depois de vários tentativas goradas de acordos envolvendo a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Lisboa de Ciências (1931, 1943, 1945, 1971/1973, 1975 e 1986) foi finalmente encontrado um texto comum que, podendo ter lacunas, é um acordo internacional e um acordo é, em si mesmo, um ato positivo que importa enfatizar; v) não tenhamos medo desta mudança que visa aproximar a grafia da articulação fonológica, pois já no passado também houve alterações, neste como noutros aspetos, também contestadas à época, mas que foram absorvidas pelos falantes e pelos escreventes [p.e. aflicto > aflito; exhausto > exausto; phosphoro > fósforo; sciência > ciência].
Admito que passaremos por um período de alguma "cacofonia ortográfica", citando Joaquim Alexandre Rodrigues, mas isso não deve invalidar, por si, o acordo uma vez que os falantes e escreventes do futuro, as crianças e os jovens, interiorizarão rapidamente os reajustamentos resultantes do acordo ortográfico.
E, já agora, nem no passado atingimos nem hoje estamos no “clímax” da evolução da língua. Parafraseando Galileu “porém, ela move-se!”.
(Publicado no: Jornal do Douro de 2012.03.02)

2 comentários:

  1. Repare, caro senhor, na data constante do topo deste blogue: 3 de Março de 2012. Repare agora na data abaixo da notícia: 2012.03.02. Como saberá, mais variantes existem. Desde que se estabeleceu nova forma para a data escrita nunca ninguém mais se entendeu no modo de a escrever. No meio de uma população maioritariamente iletrada prevejo que o mesmo acontecerá com um inútil, não solicitado, desnecessário Acordo que suprime o "c" mas que o mantém em "facto" para que não se misture com o fato. Que altera espectadores - onde o "C" fazia abrir o "E" - para espetadores que, por não lhe atribuir acento, se lê como se falássemos de quem espeta. Um acordo que será necessário rever/adaptar de novo daqui a poucos anos. Porque o mesmo português a que nos queremos adaptar continuará a sofrer mutações naturais. Porque a classe política nunca se preocupou em inundar de livros de português correcto os povos com que agora se preocupa. Até a nossa juventude dá hoje menos erros em Inglês que na sua língua materna. O que estamos a fazer, caro senhor, é a legitimar esses mesmos erros, de tal modo que até para um professor será difícil corrigi-los em cada ano "letivo" (sem "C" e o "E" aberto não sei que significa esta palavra). Só uma pergunta: atendendo a que as invenções e as descobertas se fazem porque se lhes sente a necessidade, fazia-lhe falta este acordo? A mim não. João J. A. Madeira

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    1. Meu caro João Madeira, agradecendo o comentário que aqui deixou, quero dizer-lhe que respeito a sua opinião mas dela discordo. Eu, por mim, reitero que escreverei (com alguns erros neste início) segundo o acordo ortográfico que os estados signatários assinaram em 1990 e que Portugal tem, atualmente, em vigor nos organismos públicos depois de uma, praticamente unânime, aprovação na Assembleia da República em 2008. Acácio Pinto

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