quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Liberdade de imprensa

Ora veja-se bem o que dizem por aí alguns jornalistas ressabiados e alguns candidatos a líderes de partidos políticos: Que não há liberdade de imprensa em Portugal! Que o nosso país não é um Estado de Direito! Que voltou a censura!
Pasme-se perante tanta impudência!
Então o que é que leva estes pudicos cordeiros e castos políticos, que se dizem tão violentados com esta praxis, a dizerem o que dizem?
Mas será que algum jornalista, se obediente à sua consciência e à deontologia, deixou alguma vez de dizer o que quer que seja no nosso país, depois do 25 de Abril?
Mas será que algum político, se obediente aos interesses do seu país, alguma vez foi travado de utilizar as instituições do estado de direito para se defender ou acusar ou denunciar (mesmo sem prova) algo que se passe neste Portugal democrático?
Mas será que alguma vez neste país, nas últimas décadas, alguma pessoa ou grupo económico foi impedido de exercer a sua liberdade de constituir projectos de comunicação social com as linhas editoriais que bem entendesse desde que obedientes à Constituição e à lei?
Mas será que a liberdade de imprensa só deixou de existir a partir do momento em que uma determinada crónica não foi publicada num órgão de comunicação social privado que dentro da sua linha editorial decidiu não a publicar? Então será que a esse director não assiste também a liberdade de análise do texto em causa à luz do estatuto editorial do seu jornal e dos preceitos deontológicos a que está obrigado a obedecer?
Que tamanha hipocrisia!
Tirem a máscara e digam o que vos move! A democracia ficar-vos-ia agradecida!
É que não basta, na dialéctica política, ficarmos pelas atoardas ocas e inconsistentes. É que não basta, no jogo democrático livre, atacarmos as instituições em geral e as da justiça em particular sem qualquer respeito pelas suas funções e pela legitimidade das suas decisões. É que não podemos utilizar crimes e calúnias para decapitar quem quer que seja sem qualquer respeito pelas instâncias judiciárias a quem compete tal.
Não gosto, na vida política, de culpar os mensageiros (leia-se jornais e jornalistas) que tratam e investigam as matérias sociais com o devido rigor (ou deviam!) e em completo respeito pela deontologia profissional.
Mas, será que não nos devemos interrogar, enquanto sociedade, pelo clima de confrangedora devassa, pela prática de julgamentos na praça pública, pelos ataques de carácter às pessoas e ainda dizendo que não há liberdade de imprensa, que afinal não deixou de existir? Ou será que essas reportagens, investigações não foram publicadas?
Devemos, em minha opinião, interrogar-nos e igualmente perceber no quadro de liberdade inquestionável de imprensa em que nos movemos qual deve ser a praxis que melhor pode responder aos interesses da convivialidade democrática responsável.
O exercício da vida pública e da cidadania deve ser em todos os sentidos e com respeito para com as várias perspectivas: nomeadamente para com a da dignidade das pessoas.

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