sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Hoje, dia 25 de novembro: Estilhaços*

Crónica DÃO E DEMO
* Texto escrito para a apresentação do livro “Estilhaços” em Alcanena, a 10 de abril de 2015 | autora: Fátima Ferreira | editora: Edições Esgotadas
«Um livro é antes de mais um objeto. Um objeto físico, em si mesmo. Cor, forma, textura. Que se olha e de que se gosta. Ou não!
Num primeiro olhar podemos ser por ele atraídos, mesmo que não o conheçamos.
Pode ser assim como que um amor à primeira vista. Um olhar, uma paixão.
Mas para além desse primeiro olhar, da sua forma, da sua cor, um livro também é o título, o autor e, essencialmente, o conteúdo.
É essencialmente a sua capacidade de nos conquistar pelo conteúdo. Quiçá o fundamental, quando queremos que ele seja mais, muito mais que uma mera exibição na prateleira da nossa biblioteca. Que seja muito mais que um mero troféu que exibimos, mas sem termos tido o trabalho duro, mas de prazer, de o conhecer nas entranhas.
Ora este livro da Fátima Ferreira, posso dizer-vos, conquistou-me, conquista-nos, nas suas mais diversas vertentes.
É um livro bonito, desde logo. Atraente... Também pela lágrima que escorre pela face da mulher, que nos estimula questões… Porquê o choro? Qual a origem do choro? Choro de alegria ou de tristeza?
Depois o título. “Estilhaços”. Um título tão forte e tão metafórico! Tão conotativo! Tão literário!
“Estilhaços”, um título, uma palavra, que podemos apodar de ruidosa.
Mas não são todas as palavras ruidosas? Talvez, mas esta é-o sem qualquer sombra de dúvida.
Mas ruidoso não é só o título. Ruidoso é também o seu conteúdo, desde já se diga.
O título, “estilhaços”, são portas a bater. São gritos. São vidros, são janelas partidas. Rangidos. Portas a chiar.
Tal como o seu conteúdo é ruidoso. Ruído gritado. É que o seu interior fala. A sua massa gramatical e semântica comunica. Comunica intensamente. As suas palavras metralham-nos os ouvidos e martelam-nos a cabeça até antes de um adormecer que se torna difícil depois da leitura. São palavras que se cravam na alma e, qual ferro em brasa, na carne.
Este livro mesmo quando fechado, mesmo depois de lido, emite sons, ruídos, que se propagam, quais ondas sísmicas a nascer permanentemente no seu seio.
Faz lembrar aquela metáfora do imperador chinês, de que fala Gonçalo Tavares, na sua crónica da Visão de ontem. Esse imperador tinha no seu quarto uma pintura com uma cascata e um dia pediu a um pintor que lhe apagasse da pintura a cascata. Que pintasse sobre a cascata um outro elemento pictórico. É que a cascata não o deixava dormir durante a noite. Ele não conseguia dormir com o ruído da água a cair naquela cascata.
Pois bem, este livro da Fátima Ferreira é também um pouco assim. Vereis quando o lerdes. Vereis o ruído imenso que carregareis. E espero que isto vos fascine, vos apaixone. Que não vos afaste. Vos conscientize para os dramas humanos. Para as violências da vida. Do viver. Deste nosso viver pós-moderno ou hipermoderno, como tanto gostamos de colocar na lapela, mas que tantas vezes é medieval nos corredores das casas de família.
Este livro traz-nos, portanto, um ruído, mil ruídos. Ruídos que perturbavam a autora. Ruídos que mais do que serem de cinco mulheres, de cinco vozes, são ruídos de uma única voz. De uma única mulher. Ruídos que se colaram ao corpo, ao corpo dessa mulher. Ruídos que são, no princípio e no fim, afinal, como que um infinito emaranhado de fios gelatinosos de que ela não se desprendia. Fios hermafroditas, com capacidade de autofecundação.
Fios que se auto reproduziam a partir das horas do tempo desfiado da memória. Das vozes dos filhos (deixem-me dizer, das filhas) em aflição, em silêncios amargos. Em choros escondidos. Em preces de solidão. Em busca da metáfora do “perene início”, para usar as palavras poéticas de Herberto Hélder, ou um “porto de partida”, na voz desse também imortal Miguel Torga.
Afinal, “início perene” ou “porto de partida”, mais não são do que o motor, o absoluto radical que tanto alimenta o viver. A vida. Todo o viver. E que em cada chegada nos remete para uma nova partida.
E ai quando assim não for!
Este livro é pois, para a autora, esse partir, esse início, ou esse (re)partir, esse (re)início. Mas é também, para a Fátima Ferreira, um antídoto, que encontra através da narradora, para se libertar. Ou melhor, uma tentativa de antídoto para dissolver aquele emaranhado de fios gelatinosos, aquelas vozes que falavam em silêncios ruidosos e que assustavam, quando entravam no quarto para dormir, a Ana, ou a Noémia, ou a Mariana, ou a Bárbara, ou, ou… Afinal aquela única mulher, ou todas as mulheres ao entrarem no quarto, qual campo de tortura! Por vezes de autotortura de quem nem sempre rompeu com uma amálgama de conceitos e de preconceitos. De açoites oriundos duma infância matriciada por valores, com certeza valores, mas valores que agora não a deixam, não as deixam, ver o mundo todo. Que não a libertam, as libertam, dos amontoados de destroços de terramotos diários e profundos. De uma casa, de casas, de paredes grossas. Opacas. De espaços em que os gritos se engolem a si próprios.
Prisão, afinal, era, é, muito mais do que estabelecimento prisional. É casa, também. É quarto. É sala. É cozinha. É refeição ressalgada com lágrimas escorridas. É muito o sofrimento dos filhos (das filhas) em noites de adivinhado alerta perante gritos no quarto ao lado.
Pois bem, este livro é tudo isto.
São mulheres sofridas. Direi mesmo, é uma mulher sofrida. Ou de outro modo, é um ser humano golpeado por outro ser humano.
Mas cada mulher pode também ser um homem. Cinco homens.
O género aqui não importa. O que importa é a violência bruta que está escondida em cada sorriso público hipócrita e em cada queimadura profunda privada. Venha ela donde vier. De homem ou de mulher.
Este livro é adivinhadamente duro.
É para ler. De um ou mais fôlegos. Mas é para ler.
Para ler também nas fugas encetadas que dele brotam. Nas corridas permanentes pela busca de colo. De carinho. De um peito. De quietude.
Mas é também para ler nos parágrafos do caos. Do abismo. Da quase morte. Dos ensaios de queda no poço negro do fim.
Com certeza que temos, todos, que agir. Que fazer mais. E isso já não é matéria para este livro. Isso já não é literatura. Isso são leis, regulamentos, isso é política.
Espero que este livro seja mais um princípio, um outro princípio, para que o fazer mais aconteça. Para que a sociedade aja.
Nunca conseguiremos o fim último. De banir, de erradicar da sociedade o crime. Esse crime.
O homem, a mulher, estão na sua base e quando assim é, a imperfeição acontece.
Mas atenção, esta consciência não nos deve imobilizar na ação. Pelo contrário deve impelir-nos, a todos, a uma atuação.
Pese embora estas minhas considerações finais e o facto de também a Rosa Monteiro dizer que este livro é um grito político, eu prefiro guardá-lo como uma obra literária que nos interpela através de cinco mulheres, de uma só mulher, de um ser humano, homem ou mulher. Que nos interpela sobre violências. Sobre solidão. Sobre vidas duras, muito duras que tantas vezes se passam ao nosso lado. Se passam por aqui. Por aí.
Parabéns Fátima Ferreira.»
Acácio Pinto | Texto publicado hoje a propósito do “Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres”

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