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AHORITA é um livro imperdível!

 


Que os livros eram nossos companheiros e que nos proporcionavam momentos de evasão e de fruição e que nos ofertavam múltiplos conhecimentos, já sabíamos.

Agora que um livro me proporcionaria, nestes tempos de festas de final de ano, uma viagem, tão arrojada quanto magnificente, por paisagens andinas, por cidades perdidas, por montanhas que perdem o oxigénio quando se aproximam do céu, por lagoas de um azul-turquesa que eu vi através dos olhos da narradora, por desfiladeiros de cortar a respiração, por bosques de um verde interminável, por linhas ancestrais moldadas na pele da Terra, não, não sabia, estava mesmo muito longe de o adivinhar.

Grato. Pela minha parte muito grato pela imersividade do texto que a Ana Rita Cunha me proporcionou neste seu livro AHORITA que, não, não sei se se trata de um diário de bordo, se de um diário intimista, se de um livro de viagens, ou se de um pouco de tudo isto e de muito mais.

A escrita é simples e muito transparente. Nela sente-se permanentemente a genuinidade e a alegria de um ser humano que quer ser, que quer sentir, que quer ajudar a construir um Mundo melhor.

Mas como não é fácil, não é mesmo nada fácil, ser poeta e alimentar esse sonho, essa ousada vontade transformadora, nestes tempos de prosa tão estranha e dura, a Ana Rita sofre (mas aprende!) com cada desilusão dos seus semelhantes (sobretudo homens) que se lhe atravessaram e insinuaram nesse longo caminho.

Este livro, que não se lê, sorve-se, deixa-nos com sensações estranhas, mas todas de belo efeito. Daquelas que nos fazem estremecer de prazer e que nos saciam a alma.

Viajar pela Colômbia, pelo Perú e pelo Brasil, rezar em Machu Picchu, voar pelo Valle del Colca, mascar folha de coca em altares sagrados, trepar as mais altas palmeiras da Terra, sentir a civilização Tayrona e olhar o branco dos Kogi na Ciudad Perdida, dormir nas casas flutuantes do lago Titicara…, uff, é obra, mas arriscar, arriscar sozinha a ser conduzida em táxis, motas, barcos, por humanos que se propunham vender-lhe os seus serviços de transporte, sem se lhes conhecer mais nada que não fosse acreditar nos seus olhos… foi de uma enorme determinação e crença na bondade humana!

Pois bem, estamos perante uma caminera (que caminhou nos pés dos venezuelanos) que decidiu trilhar algumas rotas neste planeta em apuros, fazendo um gap year na sua atividade profissional, para compartilhar, voluntariamente, os seus saberes e a sua formação em medicina e ser uma cidadã solidária e de coração lhano. Mas também estamos perante uma viajante que quis durante 171 dias (que quer!) conhecer o espaço que pisa e partilhar urbi et orbi as suas deambulações e as suas interações em geografias que roçam o inverossímil e com pessoas improváveis, vindas dos quatro cantos da Terra.

Dou os parabéns à Ana Rita Cunha, pela partilha deste seu lado, deste seu olhar, que hoje tanto escasseia. Eu, pela minha parte, fico com uma certeza, a de que, após esta incursão, a pessoa (a Ana Rita) que regressou desta viagem será muito melhor cidadã e a médica será muito melhor profissional.

Acácio Pinto, 02 de janeiro de 2026

Título: A HORITA

Autora: Ana Rita Cunha

Páginas: 264

Edição: Autora

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