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Montanhista arbóreo: assim se define Délcio Seco

 


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Tem 48 anos e uma vida em torno de atividades radicais.

Nasceu em Angola e reside em Viseu.

Atualmente dedica-se, em termos profissionais, àquilo a que designa de montanhismo arbóreo, ou seja, subir às árvores para lhes efetuar a poda, ou as cortar em pequenos pedaços a partir da parte mais alta, quando, em espaço urbano, não se podem derrubar de uma só vez.

Não importa a altura, onde estiver uma árvore para podar, Délcio Seco sobe por ela acima, devidamente equipado, e, passo a passo, vai cortando, cortando até chegar à altura desejada.

Para subir utiliza os materiais que normalmente se utilizam em montanhismo, e daí a designação de montanhismo arbóreo para esta sua atividade. Mas o montanhismo propriamente dito é uma atividade que o fascina desde sempre e de que ainda é praticante ativo. “Pertenço ao Clube de Montanhismo da Guarda e ao CUME, de Viseu.”

Ao CUME?

“Sim, Clube Urbano de Montanhismo e Escalada”, descodificou Délcio Seco.

Utiliza uma escada articulada para iniciar a subida e depois, a partir dos quatro, cinco metros e vê-lo ir por ali acima. Amarra corda, lança corda, corta um ramo e mais outro e em pouco tempo, mais parecendo um felino, está no cocuruto da árvore.

Afinal tudo parece fácil…

“Mas não é. É preciso muito cuidado. Utilizo técnicas de montanhismo para efetuar esta subida e tenho também umas botas especiais”.

Olhámos para elas e percebemos que têm umas esporas que lhe permitem ir-se fixando no tronco.

Mas depois de chegar ao local onde vai efetuar o corte, Délcio Seco, amarra-se devidamente e olha em volta, é a hora de tomar as decisões, de “perceber para que lado é que a pernada que queremos cortar vai cair e se é necessário amarrar alguma corda para a desviar de algum obstáculo”.

 “Tudo tem que ser pensado, para que não haja problemas para mim nem para as pessoas e bens”, referiu o nosso interlocutor.

E depois de decidir, Délcio pega na motosserra que leva pendurada ao corpo e começa a cortar. Primeiro tira-lhe uma cunha e depois o tronco que está a cortar tomba, quase sempre, para onde ele quer.

Mas às vezes há problemas?

“Sim, o tronco às vezes não vai no sentido que queremos. Ainda hoje a motosserra ficou presa e foi necessário utilizar uma corda para a soltar”.

Quanto à exigência física confessou-nos que é muito elevada e que chega ao final do dia com elevado cansaço muscular.

Porém, estas atividades radicais não são uma novidade absoluta para Délcio Seco. Ele pratica desportos radicais há mais de duas décadas. Desde logo a escalada, fazendo montanhismo na serra da Estrela e na serra do Gerês, na parte espanhola. Mas também rapel, saltos para a água e canyoning nos rios Teixeira e Cabrum, rios de montanha da nossa região com declives muito elevados e propícios a estes desportos.

“Todos estes desportos exigem muita preparação”, referiu-nos, “pois antes de irmos para o rio temos de ver a meteorologia, contactar o instituto responsável pelos rios para ver como estão os caudais, se vai haver aberturas de comportas…”.

Enfim, a conversa com Délcio Seco sobre estas suas atividades era fluente e ele avançava com pormenores reveladores de quem tem um profundo conhecimento a este nível.

Mas regressemos ao montanhismo ao arbóreo para deixarmos uma confissão que Délcio Seco nos fez. Referiu-nos, muito compenetrado, que era para ter vindo fazer este trabalho, na escola secundária de Sátão, alguns dias antes, mas não se sentiu bem e não veio. Falou-nos de uma sensação, de uma intuição que por vezes tem e que ele respeita.

Explique-nos?, questionámos.

“É assim, eu quando não me sinto bem não vou fazer estes trabalhos. Ou quando estou a fazer um serviço e, de repente, o estado de espírito não é o melhor, interrompo o trabalho e retomo no dia seguinte”.

E acrescentou: “É que as árvores são todas diferentes e são muito complicadas e eu tenho que estar bem”.

E é assim que, seguindo a sua intuição, o seu ‘sexto sentido’, Délcio Seco efetua esta atividade “há cerca de sete anos” sem problemas de maior a registar. E apesar de também “fazer alguns jardins, do que gosto mesmo é de fazer isto, de subir às árvores”.

Portanto do que gosta é mesmo de atividades radicais?

“É verdade, mas fica a saber que também fui bibliotecário durante cerca de 11 anos nas Escolas Superior Agrária e na Superior de Educação”…

Enfim, uma história de vida prenhe de tantas boas estórias…

E por aqui ficámos. Délcio Seco, disse-nos que queria chegar a casa para descansar, pois “amanhã cá estarei de novo para terminar o serviço”.

Obrigado, Délcio Seco!

Acácio Pinto

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