Notícia DÃO E DEMO.
Vai já nas dezanove edições o “Encontro de Cantares de Janeiras de Sátão”, com organização do ZAATAM - Grupo de Recolha e Divulgação de Música Popular de Sátão.
O local será o de sempre, na Igreja de Santa Maria (Igreja antiga), em Sátão, e a hora será ás 18:00 horas, o dia esse será o dia 7 de janeiro de 2017, sábado.
Para abrilhantar este 19º Encontro, estarão em Sátão, para além do grupo anfitrião, o Zaatam, o Grupo de Danças e Cantares de Perre (Viana do Castelo), a Associação Cultural castro de Pena Alba (Penalva do Castelo) e as Concertinas de São Miguel de Vila Boa (Sátão).
Os apoios são da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Sátão, da Casa do Povo de Sátão, da Gazeta de Sátão, da Rádio Alive FM, da Caixa Agrícola do Vale do Dão e do Alto Vouga e das empresas Aledi, Alfervis e Alphacor.
sábado, 31 de dezembro de 2016
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
40 anos do poder local democrático | Entrevista com José Moniz: o primeiro presidente da Câmara de Sátão
Entrevista DÃO E DEMO
Perfazem-se hoje, dia 12 de dezembro de 2016, 40 anos sobre as primeiras eleições autárquicas democráticas em Portugal.
Depois de dois anos em que as câmaras municipais e juntas de freguesia foram geridas por comissões administrativas, nomeadas através dos governos civis, o poder local foi a votos a 12 de dezembro de 1976, em eleições que haviam de ditar os primeiros autarcas legitimados através do voto democrático.
Em Sátão, José Moniz, um jovem advogado, natural de Rio de Moinhos, apresentando-se a sufrágio em 1976 pelo CDS, recolheu a maioria dos votos e tornou-se no primeiro presidente eleito democraticamente da Câmara Municipal de Sátão (mandato 1976-79), dando, assim, sequência ao mandato que foi detido por Narsélio Gouveia e Sousa, este, presidente da comissão administrativa no pós 25 de abril de 1974.
Tendo por base este facto, Dão e Demo, como forma de assinalar e de se associar a esta importante efeméride, a que se aliaram o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e a ANMP, foi conversar com José Moniz, hoje com 67 anos de idade e que, entre outras actividades, desempenha as funções de presidente do conselho de administração da Fundação Elísio Ferreira Afonso de Avelal e de presidente da assembleia geral da Caixa Agrícola do Vale do Dão e do Alto Vouga.
Qual o sentimento que guarda, hoje 40 anos volvidos, dessa vitória nas primeiras eleições autárquicas democráticas, eleito pelo CDS?
JOSÉ MONIZ: É difícil escolher uma palavra (não necessariamente sentimentos), tantas me vêm ao espírito.
Saudade, juventude, atrevimento, ilusão, sonho, esperança …, democracia, liberdade!
Em Dezembro de 1976 eu era um jovem advogado, casado, já com duas filhas, uma com dois anos, outra com poucos meses…
Tinha concorrido à Câmara Municipal, porque, cheio de ilusões, tinha a vontade e alguma esperança de resolver, no terreno, muitas das necessidades e carências de um Concelho - rural, pobre e atrasado! - do interior esquecido do País.
Com entusiasmo, “engenho e arte”, o trabalho e a colaboração entusiasmada (e entusiasmante!) das Juntas de Freguesia e das populações - sem esquecer a dedicação da enorme maioria dos (poucos) funcionários da Câmara Municipal - fez-se um exaustivo levantamento das necessidades, conseguiram-se algumas realizações/obras, lançaram-se sementes e radicaram-se raízes que deram “frutos” nos mandatos posteriores…
A propósito, convirá lembrar que não havia dinheiro (só aderimos à Europa em meados dos anos 80) e os mandatos tinham uma duração de apenas três anos…
DD: Quais os principais problemas com que se debateu e a que teve meter mãos, na Câmara de Sátão, o jovem licenciado em direito, José Moniz, durante esse mandato 1976-79?
JM: As questões mais prementes - tal como na generalidade dos Concelhos rurais - eram os, maus, ou inexistentes, acessos, a falta, ou incipiente, distribuição de energia elétrica, água e saneamento, a rutura do Ensino Básico … e as enormes dificuldades financeiras em desesperantes orçamentos sem receitas.
DD: Quais os cinco membros que integraram esse primeiro executivo, da maioria e da oposição? E quem foi presidente da Assembleia Municipal?
JM: Um Presidente e quatro Senhores Vereadores, a saber: eu, Manuel Correia Carvalho, Arlindo Ferreira (CDS), Manuel António Magalhães (depois substituído por António Fernandes Silva) e Alfredo Frias.
O Presidente da Assembleia Municipal: Júlio Saraiva Marinho.
DD: Ainda se recorda, qual a remuneração que auferia, como presidente?
JM: Confesso que não me lembro, mas penso que rondaria os 2.000/3.000 escudos por mês.
JM: Não havia ainda legislação autárquica (e muito menos autonomia financeira) sistematizada, regia o “velho” Código Administrativo do Estado Novo e alguns Decretos-Leis avulsos - só nos anos oitenta se começou a legislar com conta, peso e medida.
Logo … não havia vereadores a tempo inteiro, ou a meio tempo, pelo que toda as decisões/ações cabiam ao Presidente e, por norma, eram posteriormente ratificadas nas reuniões camarárias.
No caso, especial, do Sátão dava-se a feliz circunstância de o Senhor Manuel Carvalho dispor de total disponibilidade de tempo (e dinheiro), um entusiasmo transbordante pelo seu Concelho e uma vontade enorme de também resolver os problemas que surgiam.
Sempre decidimos os dois.
Fizemos uma belíssima dupla, que felizmente ainda hoje se mantém noutras áreas de atuação…apesar de, juntos, já ultrapassarmos os cento e cinquenta anos!
E aproveito a ocasião para perguntar: para quando a justa homenagem a um homem que tanto deu (e ainda dá) pelo Sátão?
DD: Quais as principais obras que executou no seu mandato?
JM: É muito redutor pretender enumerar obras que se executaram, até porque algumas “importantes” seriam esquecidas e poderíamos valorizar algumas “insignificantes” …
Mas, a título de exemplo e de forma não exaustivo, referira-se:
- abertura ou melhoria de acessos: todo o Vale da Ribeira, estrada municipal Águas Boas/Forles, ligação ao Carvalhal das Romãs, abertura Aldeia Nova/Madalena, lançamento do Concurso da Estrada Sátão/Rio de Moinhos, para além de calcetamentos de arruamentos novos, ou já existentes, nas variadas Freguesias.
- eletrificação de inúmeras aldeias e lançamentos de projetos para muitas mais…
Saber-se-á, porventura, que em muitos “lugares” da freguesia do Sátão, ou de São Miguel de Vila Boa, ou das Romãs, ou de Ferreira de Aves, ou de … não havia, em 1976!, eletricidade e ainda se vivia “á luz do petróleo, ou da lareira”?
- elaboração de projetos de água e saneamento, lançamento de concursos e começo da sua execução, como por exemplo nas Freguesias de Sátão, Ferreira de Aves, Silvã, Romãs ou São Miguel de Vila Boa…
- negociação, muito complicada, com o Ministério da Educação para a construção da Escola Secundária (que obrigou, nomeadamente, a alterações, em tempo record, do então Ante Plano de Urbanização da Vila e a morosas negociações com os proprietários dos terrenos) e lançamento da respetiva obra ou a construção, aumentos ou reabilitações de edifícios do Ensino Primário.
E etc., etc., etc….
DD: A luta política, em termos ideológicos e partidários, nesse tempo era bastante acesa. Lembra-se de alguns episódios da luta partidária que tivessem tido ecos na gestão municipal?
JM: Que me recorde … apenas pequenas quezílias partidárias, sem particular importância.
Não nos esqueçamos que os autarcas estavam sobre continuado exame dos “povos e das gentes”, pelo que, no geral, todos se orientavam e trabalhavam pelo bem comum e, logo, os interesses puramente partidários eram muitas vezes desconsiderados…
A este propósito … curioso é relembrar - até porque poucas pessoas disso se recordam!!! - que o Concelho do Sátão foi o único em todo o País em que, nas Eleições Autárquicas subsequentes (em 1979), o PPD/PSD não apresentou listas autónomas às Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal!
E estávamos em tempos do Dr. Sá Carneiro!!!
Perdoem a imodéstia, mas não terá sido este facto, a ausência do PPD/PSD nas eleições de 1979, o melhor reconhecimento da bondade do nosso mandato???
JM: Uma única, e ponderosa, razão: nunca pretendi depender da Política para viver e sempre entendi que devia ter um respaldo económico/financeiro que não me condicionasse; isto é, sempre quis ter independência financeira para me sentir livre e “bater com a porta” quando não concordasse ou pura e simplesmente me apetecesse!
Por esta simples razão comecei a advogar a sério em 1980 (curiosamente no escritório que tinha aberto em dezembro de 1976, mas que, por ter sido eleito, pouco “frequentei”…) e passei a dedicar-me à Política - que abandonei de todo em 1992 - em funções não executivas (Assembleia Municipal do Sátão e de Viseu, Vereador, sem pelouro distribuído, da Câmara Municipal de Viseu, Deputado, em regime de não exclusividade, de 1983/85), a outras atividades mais sociais ou cooperativas (Caixa de Crédito Agrícola, Fundação Elísio Ferreira Afonso ou Santa Casa da Misericórdia de Viseu e à Família!
Mas sempre a advogar e com o seu respaldo…
DD: Quarenta anos volvidos, qual o olhar que o cidadão José Moniz tem sobre o poder local?
JM: Tirando o que é vulgarmente referido (a Democracia e a Liberdade), não tenho dúvidas nenhumas que o Poder Autárquico foi a maior conquista do 25 de Abril!
Apesar de algumas pechas e de alguns maus exemplos de autarcas …
Mas,
Quem mais que o Poder Autárquico respondeu, e deve responder, às necessidades básicas das populações???
Quem mais que o Poder Autárquico está mais próximo das pessoas?
Quem mais que o Poder Autárquico é tão escrutinado?
Aliás, quem conhecer um pouco da História de Portugal, saberá que o Municipalismo sempre foi, fosse em que época fosse, o verdadeiro defensor dos povos mais desfavorecidos e, a mais das vezes, os mais esquecidos.
DD: Muito obrigado e felicidades.
Perfazem-se hoje, dia 12 de dezembro de 2016, 40 anos sobre as primeiras eleições autárquicas democráticas em Portugal.
Depois de dois anos em que as câmaras municipais e juntas de freguesia foram geridas por comissões administrativas, nomeadas através dos governos civis, o poder local foi a votos a 12 de dezembro de 1976, em eleições que haviam de ditar os primeiros autarcas legitimados através do voto democrático.
Em Sátão, José Moniz, um jovem advogado, natural de Rio de Moinhos, apresentando-se a sufrágio em 1976 pelo CDS, recolheu a maioria dos votos e tornou-se no primeiro presidente eleito democraticamente da Câmara Municipal de Sátão (mandato 1976-79), dando, assim, sequência ao mandato que foi detido por Narsélio Gouveia e Sousa, este, presidente da comissão administrativa no pós 25 de abril de 1974.
Tendo por base este facto, Dão e Demo, como forma de assinalar e de se associar a esta importante efeméride, a que se aliaram o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e a ANMP, foi conversar com José Moniz, hoje com 67 anos de idade e que, entre outras actividades, desempenha as funções de presidente do conselho de administração da Fundação Elísio Ferreira Afonso de Avelal e de presidente da assembleia geral da Caixa Agrícola do Vale do Dão e do Alto Vouga.
“(…) tinha a vontade e alguma esperança de resolver, no terreno, muitas das necessidades e carências de um Concelho - rural, pobre e atrasado! - do interior esquecido do País.”
DÃO E DEMO: Faz hoje 40 anos [12.12.1976 – 12.12.2016] que o, então, jovem José António Morais Sarmento Moniz foi eleito presidente da Câmara Municipal de Sátão, dois anos volvidos sobre o 25 de abril de 1974.Qual o sentimento que guarda, hoje 40 anos volvidos, dessa vitória nas primeiras eleições autárquicas democráticas, eleito pelo CDS?
JOSÉ MONIZ: É difícil escolher uma palavra (não necessariamente sentimentos), tantas me vêm ao espírito.
Saudade, juventude, atrevimento, ilusão, sonho, esperança …, democracia, liberdade!
Em Dezembro de 1976 eu era um jovem advogado, casado, já com duas filhas, uma com dois anos, outra com poucos meses…
Tinha concorrido à Câmara Municipal, porque, cheio de ilusões, tinha a vontade e alguma esperança de resolver, no terreno, muitas das necessidades e carências de um Concelho - rural, pobre e atrasado! - do interior esquecido do País.
Com entusiasmo, “engenho e arte”, o trabalho e a colaboração entusiasmada (e entusiasmante!) das Juntas de Freguesia e das populações - sem esquecer a dedicação da enorme maioria dos (poucos) funcionários da Câmara Municipal - fez-se um exaustivo levantamento das necessidades, conseguiram-se algumas realizações/obras, lançaram-se sementes e radicaram-se raízes que deram “frutos” nos mandatos posteriores…
A propósito, convirá lembrar que não havia dinheiro (só aderimos à Europa em meados dos anos 80) e os mandatos tinham uma duração de apenas três anos…
DD: Quais os principais problemas com que se debateu e a que teve meter mãos, na Câmara de Sátão, o jovem licenciado em direito, José Moniz, durante esse mandato 1976-79?
JM: As questões mais prementes - tal como na generalidade dos Concelhos rurais - eram os, maus, ou inexistentes, acessos, a falta, ou incipiente, distribuição de energia elétrica, água e saneamento, a rutura do Ensino Básico … e as enormes dificuldades financeiras em desesperantes orçamentos sem receitas.
DD: Quais os cinco membros que integraram esse primeiro executivo, da maioria e da oposição? E quem foi presidente da Assembleia Municipal?
JM: Um Presidente e quatro Senhores Vereadores, a saber: eu, Manuel Correia Carvalho, Arlindo Ferreira (CDS), Manuel António Magalhães (depois substituído por António Fernandes Silva) e Alfredo Frias.
O Presidente da Assembleia Municipal: Júlio Saraiva Marinho.
DD: Ainda se recorda, qual a remuneração que auferia, como presidente?
JM: Confesso que não me lembro, mas penso que rondaria os 2.000/3.000 escudos por mês.
“E aproveito a ocasião para perguntar: para quando a justa homenagem a um homem [Manuel Carvalho] que tanto deu (e ainda dá) pelo Sátão?”
DD: Nesse mandato havia pelouros distribuídos pelos vereadores, ou só presidente estava a tempo inteiro e as decisões eram todas assumidas nas reuniões de câmara?JM: Não havia ainda legislação autárquica (e muito menos autonomia financeira) sistematizada, regia o “velho” Código Administrativo do Estado Novo e alguns Decretos-Leis avulsos - só nos anos oitenta se começou a legislar com conta, peso e medida.
Logo … não havia vereadores a tempo inteiro, ou a meio tempo, pelo que toda as decisões/ações cabiam ao Presidente e, por norma, eram posteriormente ratificadas nas reuniões camarárias.
No caso, especial, do Sátão dava-se a feliz circunstância de o Senhor Manuel Carvalho dispor de total disponibilidade de tempo (e dinheiro), um entusiasmo transbordante pelo seu Concelho e uma vontade enorme de também resolver os problemas que surgiam.
Sempre decidimos os dois.
Fizemos uma belíssima dupla, que felizmente ainda hoje se mantém noutras áreas de atuação…apesar de, juntos, já ultrapassarmos os cento e cinquenta anos!
E aproveito a ocasião para perguntar: para quando a justa homenagem a um homem que tanto deu (e ainda dá) pelo Sátão?
DD: Quais as principais obras que executou no seu mandato?
JM: É muito redutor pretender enumerar obras que se executaram, até porque algumas “importantes” seriam esquecidas e poderíamos valorizar algumas “insignificantes” …
Mas, a título de exemplo e de forma não exaustivo, referira-se:
- abertura ou melhoria de acessos: todo o Vale da Ribeira, estrada municipal Águas Boas/Forles, ligação ao Carvalhal das Romãs, abertura Aldeia Nova/Madalena, lançamento do Concurso da Estrada Sátão/Rio de Moinhos, para além de calcetamentos de arruamentos novos, ou já existentes, nas variadas Freguesias.
- eletrificação de inúmeras aldeias e lançamentos de projetos para muitas mais…
Saber-se-á, porventura, que em muitos “lugares” da freguesia do Sátão, ou de São Miguel de Vila Boa, ou das Romãs, ou de Ferreira de Aves, ou de … não havia, em 1976!, eletricidade e ainda se vivia “á luz do petróleo, ou da lareira”?
- elaboração de projetos de água e saneamento, lançamento de concursos e começo da sua execução, como por exemplo nas Freguesias de Sátão, Ferreira de Aves, Silvã, Romãs ou São Miguel de Vila Boa…
- negociação, muito complicada, com o Ministério da Educação para a construção da Escola Secundária (que obrigou, nomeadamente, a alterações, em tempo record, do então Ante Plano de Urbanização da Vila e a morosas negociações com os proprietários dos terrenos) e lançamento da respetiva obra ou a construção, aumentos ou reabilitações de edifícios do Ensino Primário.
E etc., etc., etc….
DD: A luta política, em termos ideológicos e partidários, nesse tempo era bastante acesa. Lembra-se de alguns episódios da luta partidária que tivessem tido ecos na gestão municipal?
JM: Que me recorde … apenas pequenas quezílias partidárias, sem particular importância.
Não nos esqueçamos que os autarcas estavam sobre continuado exame dos “povos e das gentes”, pelo que, no geral, todos se orientavam e trabalhavam pelo bem comum e, logo, os interesses puramente partidários eram muitas vezes desconsiderados…
A este propósito … curioso é relembrar - até porque poucas pessoas disso se recordam!!! - que o Concelho do Sátão foi o único em todo o País em que, nas Eleições Autárquicas subsequentes (em 1979), o PPD/PSD não apresentou listas autónomas às Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal!
E estávamos em tempos do Dr. Sá Carneiro!!!
Perdoem a imodéstia, mas não terá sido este facto, a ausência do PPD/PSD nas eleições de 1979, o melhor reconhecimento da bondade do nosso mandato???
“nunca pretendi depender da Política para viver e sempre entendi que devia ter um respaldo económico/financeiro que não me condicionasse”
DD: Qual o motivo que o levou a não se recandidatar em 1979 a um novo mandato?JM: Uma única, e ponderosa, razão: nunca pretendi depender da Política para viver e sempre entendi que devia ter um respaldo económico/financeiro que não me condicionasse; isto é, sempre quis ter independência financeira para me sentir livre e “bater com a porta” quando não concordasse ou pura e simplesmente me apetecesse!
Por esta simples razão comecei a advogar a sério em 1980 (curiosamente no escritório que tinha aberto em dezembro de 1976, mas que, por ter sido eleito, pouco “frequentei”…) e passei a dedicar-me à Política - que abandonei de todo em 1992 - em funções não executivas (Assembleia Municipal do Sátão e de Viseu, Vereador, sem pelouro distribuído, da Câmara Municipal de Viseu, Deputado, em regime de não exclusividade, de 1983/85), a outras atividades mais sociais ou cooperativas (Caixa de Crédito Agrícola, Fundação Elísio Ferreira Afonso ou Santa Casa da Misericórdia de Viseu e à Família!
Mas sempre a advogar e com o seu respaldo…
DD: Quarenta anos volvidos, qual o olhar que o cidadão José Moniz tem sobre o poder local?
JM: Tirando o que é vulgarmente referido (a Democracia e a Liberdade), não tenho dúvidas nenhumas que o Poder Autárquico foi a maior conquista do 25 de Abril!
Apesar de algumas pechas e de alguns maus exemplos de autarcas …
Mas,
Quem mais que o Poder Autárquico respondeu, e deve responder, às necessidades básicas das populações???
Quem mais que o Poder Autárquico está mais próximo das pessoas?
Quem mais que o Poder Autárquico é tão escrutinado?
Aliás, quem conhecer um pouco da História de Portugal, saberá que o Municipalismo sempre foi, fosse em que época fosse, o verdadeiro defensor dos povos mais desfavorecidos e, a mais das vezes, os mais esquecidos.
DD: Muito obrigado e felicidades.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
ATINGIMOS 1 MILHÃO E MEIO DE VISUALIZAÇÕES!
Nado em janeiro de 2010, de seu nome LETRAS E CONTEÚDOS, este blog atingiu no final de novembro 1.500.000 de visualizações.
Relevante ou não, é uma marca como tantas outras. E se aqui damos nota de que este "número redondo" foi atingido, como se pode ver na foto que publicamos, tal deve-se ao facto de querermos continuar a privilegiar esta relação transparente com todos os seguidores e leitores, pois foram eles a razão da sua criação e continuam a ser eles a razão para a sua continuidade.
Se até outubro de 2015 este blog serviu para divulgar, sobretudo, as atividades partidárias que desenvolvi enquanto deputado à Assembleia da República eleito pelo círculo de Viseu nas listas do PS, de então para cá, aqui tenho continuado a deixar opiniões pessoais sobre temas da atualidade nacional, mas também sobre assuntos relacionados com a região em partilha, muitas vezes, de notícias do jornal digital DÃO E DEMO.
Obrigado a todos quantos nos têm privilegiado com visualizações da página.
Acácio Pinto
2016.12.02
Relevante ou não, é uma marca como tantas outras. E se aqui damos nota de que este "número redondo" foi atingido, como se pode ver na foto que publicamos, tal deve-se ao facto de querermos continuar a privilegiar esta relação transparente com todos os seguidores e leitores, pois foram eles a razão da sua criação e continuam a ser eles a razão para a sua continuidade.
Se até outubro de 2015 este blog serviu para divulgar, sobretudo, as atividades partidárias que desenvolvi enquanto deputado à Assembleia da República eleito pelo círculo de Viseu nas listas do PS, de então para cá, aqui tenho continuado a deixar opiniões pessoais sobre temas da atualidade nacional, mas também sobre assuntos relacionados com a região em partilha, muitas vezes, de notícias do jornal digital DÃO E DEMO.
Obrigado a todos quantos nos têm privilegiado com visualizações da página.
Acácio Pinto
2016.12.02
domingo, 27 de novembro de 2016
Queijo à chef: A arte andou à solta na Casa da Ínsua
Notícia DÃO E DEMO
A arte andou à solta na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo. Falamos da arte de bem cozinhar queijo Serra da Estrela, por chefes de cozinha consagrados. Da arte de bem servir, em pratos Vista Alegre. Da arte de bem aconselhar os vinhos do Dão para acompanhar os pratos em degustação. Da arte de bem organizar um evento de referência na promoção de produtos da nossa região. Da arte de bem receber, tão característica dos penalvenses.
Tratou-se de mais uma organização do evento “Queijo Serra da Estrela à Chef”, uma iniciativa da CIM Viseu Dão Lafões, em parceria com a Câmara de Penalva do Castelo e com a Visabeira e que contou com o apoio do Crédito Agrícola do Vale do Dão e do Alto Vouga e que se realizou neste sábado, dia 26 de novembro.
Os sabores foram os mais diversificados, sempre com a presença do queijo Serra da Estrela. Um “amuse-bouche” proposto pelo chef Paulo Cardoso, a abrir, composto por um dueto de maçã e presunto em esfera, areia de azeitona e queijo Serra da Estrela Casa da Ínsua; uma entrada proposta pelo chef Vítor Matos (Estrela Michelin), composta por ravioli queijo Serra da Estrela com manteiga das marinhas e salva, trombetas da morte, folhas de capuchinha e flores; uma sopa proposta pelo chef Fernando Agrasar (Estrela Michelin), composta de peixe assado com nhoques de queijo Serra da Estrela; um marisco proposto pelo chef Rui Silvestre (Estrela Michelin) composta de ostra do moinho dos Ilhéus, agrião e queijo Serra da Estrela; um prato de peixe proposto pela chef Marlene Vieira, composto de bacalhau frito, consommé de cebola, couve de bruxelas e soufflé com queijo Serra da Estrela; um prato de carne proposto pelo chef André Silva (Estrela Michelin) composto por vitela com queijo Serra da Estrela, raiz de cerefólio, alcachofras, foi egras e cogumelos; uma sobremesa proposta pelo chef Luca Arguelles, composta por finger de alperce, queijo Serra da Estrela e sopa de eucalipto; e um petit four igualmente proposto pelo Luca Arguelles, composto de mini tarte de castanhas, queijo Serra da Estrela e aguardente velha.
Para acompanhar esta diversidade de sabores e saberes só um excelente sommelier, Sérgio Pereira, para ir caso a caso sugerindo os vinhos que poderiam acompanhar cada um dos pratos.
Os brancos eram da Casa da Ínsua, Vinícola de Nelas, Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, Julia Kemper, Quinta dos Monteirinhos, Quinta dos Carvalhais, Quinta do Serrado, Quinta do Perdigão, Pedra Cancela e Casa Mouraz.
Os tintos eram da Casa da Ínsua, Quinta da Falorca, Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, Soito Wines, CM Wines, Adega da Corga, Quinta do Serrado, Morgado de Silgueiros, Adega Cooperativa de Mangualde, Quinta da Fata, Julia Kemper, Quinta de Lemos, Quinta dos Carvalhais, Cabriz, Casa Mouraz e Casa de Santar.
A encerrar intervieram os presidentes da Câmara Municipal de Penalva do Castelo, Francisco Carvalho e da CIM Viseu Dão Lafões, José Morgado.
A arte andou à solta na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo. Falamos da arte de bem cozinhar queijo Serra da Estrela, por chefes de cozinha consagrados. Da arte de bem servir, em pratos Vista Alegre. Da arte de bem aconselhar os vinhos do Dão para acompanhar os pratos em degustação. Da arte de bem organizar um evento de referência na promoção de produtos da nossa região. Da arte de bem receber, tão característica dos penalvenses.
Tratou-se de mais uma organização do evento “Queijo Serra da Estrela à Chef”, uma iniciativa da CIM Viseu Dão Lafões, em parceria com a Câmara de Penalva do Castelo e com a Visabeira e que contou com o apoio do Crédito Agrícola do Vale do Dão e do Alto Vouga e que se realizou neste sábado, dia 26 de novembro.
Os sabores foram os mais diversificados, sempre com a presença do queijo Serra da Estrela. Um “amuse-bouche” proposto pelo chef Paulo Cardoso, a abrir, composto por um dueto de maçã e presunto em esfera, areia de azeitona e queijo Serra da Estrela Casa da Ínsua; uma entrada proposta pelo chef Vítor Matos (Estrela Michelin), composta por ravioli queijo Serra da Estrela com manteiga das marinhas e salva, trombetas da morte, folhas de capuchinha e flores; uma sopa proposta pelo chef Fernando Agrasar (Estrela Michelin), composta de peixe assado com nhoques de queijo Serra da Estrela; um marisco proposto pelo chef Rui Silvestre (Estrela Michelin) composta de ostra do moinho dos Ilhéus, agrião e queijo Serra da Estrela; um prato de peixe proposto pela chef Marlene Vieira, composto de bacalhau frito, consommé de cebola, couve de bruxelas e soufflé com queijo Serra da Estrela; um prato de carne proposto pelo chef André Silva (Estrela Michelin) composto por vitela com queijo Serra da Estrela, raiz de cerefólio, alcachofras, foi egras e cogumelos; uma sobremesa proposta pelo chef Luca Arguelles, composta por finger de alperce, queijo Serra da Estrela e sopa de eucalipto; e um petit four igualmente proposto pelo Luca Arguelles, composto de mini tarte de castanhas, queijo Serra da Estrela e aguardente velha.
Para acompanhar esta diversidade de sabores e saberes só um excelente sommelier, Sérgio Pereira, para ir caso a caso sugerindo os vinhos que poderiam acompanhar cada um dos pratos.
Os brancos eram da Casa da Ínsua, Vinícola de Nelas, Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, Julia Kemper, Quinta dos Monteirinhos, Quinta dos Carvalhais, Quinta do Serrado, Quinta do Perdigão, Pedra Cancela e Casa Mouraz.
Os tintos eram da Casa da Ínsua, Quinta da Falorca, Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, Soito Wines, CM Wines, Adega da Corga, Quinta do Serrado, Morgado de Silgueiros, Adega Cooperativa de Mangualde, Quinta da Fata, Julia Kemper, Quinta de Lemos, Quinta dos Carvalhais, Cabriz, Casa Mouraz e Casa de Santar.
A encerrar intervieram os presidentes da Câmara Municipal de Penalva do Castelo, Francisco Carvalho e da CIM Viseu Dão Lafões, José Morgado.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Hoje, dia 25 de novembro: Estilhaços*
Crónica DÃO E DEMO
* Texto escrito para a apresentação do livro “Estilhaços” em Alcanena, a 10 de abril de 2015 | autora: Fátima Ferreira | editora: Edições Esgotadas
«Um livro é antes de mais um objeto. Um objeto físico, em si mesmo. Cor, forma, textura. Que se olha e de que se gosta. Ou não!
Num primeiro olhar podemos ser por ele atraídos, mesmo que não o conheçamos.
Pode ser assim como que um amor à primeira vista. Um olhar, uma paixão.
Mas para além desse primeiro olhar, da sua forma, da sua cor, um livro também é o título, o autor e, essencialmente, o conteúdo.
É essencialmente a sua capacidade de nos conquistar pelo conteúdo. Quiçá o fundamental, quando queremos que ele seja mais, muito mais que uma mera exibição na prateleira da nossa biblioteca. Que seja muito mais que um mero troféu que exibimos, mas sem termos tido o trabalho duro, mas de prazer, de o conhecer nas entranhas.
Ora este livro da Fátima Ferreira, posso dizer-vos, conquistou-me, conquista-nos, nas suas mais diversas vertentes.
É um livro bonito, desde logo. Atraente... Também pela lágrima que escorre pela face da mulher, que nos estimula questões… Porquê o choro? Qual a origem do choro? Choro de alegria ou de tristeza?
Depois o título. “Estilhaços”. Um título tão forte e tão metafórico! Tão conotativo! Tão literário!
“Estilhaços”, um título, uma palavra, que podemos apodar de ruidosa.
Mas não são todas as palavras ruidosas? Talvez, mas esta é-o sem qualquer sombra de dúvida.
Mas ruidoso não é só o título. Ruidoso é também o seu conteúdo, desde já se diga.
O título, “estilhaços”, são portas a bater. São gritos. São vidros, são janelas partidas. Rangidos. Portas a chiar.
Tal como o seu conteúdo é ruidoso. Ruído gritado. É que o seu interior fala. A sua massa gramatical e semântica comunica. Comunica intensamente. As suas palavras metralham-nos os ouvidos e martelam-nos a cabeça até antes de um adormecer que se torna difícil depois da leitura. São palavras que se cravam na alma e, qual ferro em brasa, na carne.
Este livro mesmo quando fechado, mesmo depois de lido, emite sons, ruídos, que se propagam, quais ondas sísmicas a nascer permanentemente no seu seio.
Faz lembrar aquela metáfora do imperador chinês, de que fala Gonçalo Tavares, na sua crónica da Visão de ontem. Esse imperador tinha no seu quarto uma pintura com uma cascata e um dia pediu a um pintor que lhe apagasse da pintura a cascata. Que pintasse sobre a cascata um outro elemento pictórico. É que a cascata não o deixava dormir durante a noite. Ele não conseguia dormir com o ruído da água a cair naquela cascata.
Pois bem, este livro da Fátima Ferreira é também um pouco assim. Vereis quando o lerdes. Vereis o ruído imenso que carregareis. E espero que isto vos fascine, vos apaixone. Que não vos afaste. Vos conscientize para os dramas humanos. Para as violências da vida. Do viver. Deste nosso viver pós-moderno ou hipermoderno, como tanto gostamos de colocar na lapela, mas que tantas vezes é medieval nos corredores das casas de família.
Este livro traz-nos, portanto, um ruído, mil ruídos. Ruídos que perturbavam a autora. Ruídos que mais do que serem de cinco mulheres, de cinco vozes, são ruídos de uma única voz. De uma única mulher. Ruídos que se colaram ao corpo, ao corpo dessa mulher. Ruídos que são, no princípio e no fim, afinal, como que um infinito emaranhado de fios gelatinosos de que ela não se desprendia. Fios hermafroditas, com capacidade de autofecundação.
Fios que se auto reproduziam a partir das horas do tempo desfiado da memória. Das vozes dos filhos (deixem-me dizer, das filhas) em aflição, em silêncios amargos. Em choros escondidos. Em preces de solidão. Em busca da metáfora do “perene início”, para usar as palavras poéticas de Herberto Hélder, ou um “porto de partida”, na voz desse também imortal Miguel Torga.
Afinal, “início perene” ou “porto de partida”, mais não são do que o motor, o absoluto radical que tanto alimenta o viver. A vida. Todo o viver. E que em cada chegada nos remete para uma nova partida.
E ai quando assim não for!
Este livro é pois, para a autora, esse partir, esse início, ou esse (re)partir, esse (re)início. Mas é também, para a Fátima Ferreira, um antídoto, que encontra através da narradora, para se libertar. Ou melhor, uma tentativa de antídoto para dissolver aquele emaranhado de fios gelatinosos, aquelas vozes que falavam em silêncios ruidosos e que assustavam, quando entravam no quarto para dormir, a Ana, ou a Noémia, ou a Mariana, ou a Bárbara, ou, ou… Afinal aquela única mulher, ou todas as mulheres ao entrarem no quarto, qual campo de tortura! Por vezes de autotortura de quem nem sempre rompeu com uma amálgama de conceitos e de preconceitos. De açoites oriundos duma infância matriciada por valores, com certeza valores, mas valores que agora não a deixam, não as deixam, ver o mundo todo. Que não a libertam, as libertam, dos amontoados de destroços de terramotos diários e profundos. De uma casa, de casas, de paredes grossas. Opacas. De espaços em que os gritos se engolem a si próprios.
Prisão, afinal, era, é, muito mais do que estabelecimento prisional. É casa, também. É quarto. É sala. É cozinha. É refeição ressalgada com lágrimas escorridas. É muito o sofrimento dos filhos (das filhas) em noites de adivinhado alerta perante gritos no quarto ao lado.
Pois bem, este livro é tudo isto.
São mulheres sofridas. Direi mesmo, é uma mulher sofrida. Ou de outro modo, é um ser humano golpeado por outro ser humano.
Mas cada mulher pode também ser um homem. Cinco homens.
O género aqui não importa. O que importa é a violência bruta que está escondida em cada sorriso público hipócrita e em cada queimadura profunda privada. Venha ela donde vier. De homem ou de mulher.
Este livro é adivinhadamente duro.
É para ler. De um ou mais fôlegos. Mas é para ler.
Para ler também nas fugas encetadas que dele brotam. Nas corridas permanentes pela busca de colo. De carinho. De um peito. De quietude.
Mas é também para ler nos parágrafos do caos. Do abismo. Da quase morte. Dos ensaios de queda no poço negro do fim.
Com certeza que temos, todos, que agir. Que fazer mais. E isso já não é matéria para este livro. Isso já não é literatura. Isso são leis, regulamentos, isso é política.
Espero que este livro seja mais um princípio, um outro princípio, para que o fazer mais aconteça. Para que a sociedade aja.
Nunca conseguiremos o fim último. De banir, de erradicar da sociedade o crime. Esse crime.
O homem, a mulher, estão na sua base e quando assim é, a imperfeição acontece.
Mas atenção, esta consciência não nos deve imobilizar na ação. Pelo contrário deve impelir-nos, a todos, a uma atuação.
Pese embora estas minhas considerações finais e o facto de também a Rosa Monteiro dizer que este livro é um grito político, eu prefiro guardá-lo como uma obra literária que nos interpela através de cinco mulheres, de uma só mulher, de um ser humano, homem ou mulher. Que nos interpela sobre violências. Sobre solidão. Sobre vidas duras, muito duras que tantas vezes se passam ao nosso lado. Se passam por aqui. Por aí.
Parabéns Fátima Ferreira.»
Acácio Pinto | Texto publicado hoje a propósito do “Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres”
* Texto escrito para a apresentação do livro “Estilhaços” em Alcanena, a 10 de abril de 2015 | autora: Fátima Ferreira | editora: Edições Esgotadas
«Um livro é antes de mais um objeto. Um objeto físico, em si mesmo. Cor, forma, textura. Que se olha e de que se gosta. Ou não!
Num primeiro olhar podemos ser por ele atraídos, mesmo que não o conheçamos.
Pode ser assim como que um amor à primeira vista. Um olhar, uma paixão.
Mas para além desse primeiro olhar, da sua forma, da sua cor, um livro também é o título, o autor e, essencialmente, o conteúdo.
É essencialmente a sua capacidade de nos conquistar pelo conteúdo. Quiçá o fundamental, quando queremos que ele seja mais, muito mais que uma mera exibição na prateleira da nossa biblioteca. Que seja muito mais que um mero troféu que exibimos, mas sem termos tido o trabalho duro, mas de prazer, de o conhecer nas entranhas.
Ora este livro da Fátima Ferreira, posso dizer-vos, conquistou-me, conquista-nos, nas suas mais diversas vertentes.
É um livro bonito, desde logo. Atraente... Também pela lágrima que escorre pela face da mulher, que nos estimula questões… Porquê o choro? Qual a origem do choro? Choro de alegria ou de tristeza?
Depois o título. “Estilhaços”. Um título tão forte e tão metafórico! Tão conotativo! Tão literário!
“Estilhaços”, um título, uma palavra, que podemos apodar de ruidosa.
Mas não são todas as palavras ruidosas? Talvez, mas esta é-o sem qualquer sombra de dúvida.
Mas ruidoso não é só o título. Ruidoso é também o seu conteúdo, desde já se diga.
O título, “estilhaços”, são portas a bater. São gritos. São vidros, são janelas partidas. Rangidos. Portas a chiar.
Tal como o seu conteúdo é ruidoso. Ruído gritado. É que o seu interior fala. A sua massa gramatical e semântica comunica. Comunica intensamente. As suas palavras metralham-nos os ouvidos e martelam-nos a cabeça até antes de um adormecer que se torna difícil depois da leitura. São palavras que se cravam na alma e, qual ferro em brasa, na carne.
Este livro mesmo quando fechado, mesmo depois de lido, emite sons, ruídos, que se propagam, quais ondas sísmicas a nascer permanentemente no seu seio.
Faz lembrar aquela metáfora do imperador chinês, de que fala Gonçalo Tavares, na sua crónica da Visão de ontem. Esse imperador tinha no seu quarto uma pintura com uma cascata e um dia pediu a um pintor que lhe apagasse da pintura a cascata. Que pintasse sobre a cascata um outro elemento pictórico. É que a cascata não o deixava dormir durante a noite. Ele não conseguia dormir com o ruído da água a cair naquela cascata.
Pois bem, este livro da Fátima Ferreira é também um pouco assim. Vereis quando o lerdes. Vereis o ruído imenso que carregareis. E espero que isto vos fascine, vos apaixone. Que não vos afaste. Vos conscientize para os dramas humanos. Para as violências da vida. Do viver. Deste nosso viver pós-moderno ou hipermoderno, como tanto gostamos de colocar na lapela, mas que tantas vezes é medieval nos corredores das casas de família.
Este livro traz-nos, portanto, um ruído, mil ruídos. Ruídos que perturbavam a autora. Ruídos que mais do que serem de cinco mulheres, de cinco vozes, são ruídos de uma única voz. De uma única mulher. Ruídos que se colaram ao corpo, ao corpo dessa mulher. Ruídos que são, no princípio e no fim, afinal, como que um infinito emaranhado de fios gelatinosos de que ela não se desprendia. Fios hermafroditas, com capacidade de autofecundação.
Fios que se auto reproduziam a partir das horas do tempo desfiado da memória. Das vozes dos filhos (deixem-me dizer, das filhas) em aflição, em silêncios amargos. Em choros escondidos. Em preces de solidão. Em busca da metáfora do “perene início”, para usar as palavras poéticas de Herberto Hélder, ou um “porto de partida”, na voz desse também imortal Miguel Torga.
Afinal, “início perene” ou “porto de partida”, mais não são do que o motor, o absoluto radical que tanto alimenta o viver. A vida. Todo o viver. E que em cada chegada nos remete para uma nova partida.
E ai quando assim não for!
Este livro é pois, para a autora, esse partir, esse início, ou esse (re)partir, esse (re)início. Mas é também, para a Fátima Ferreira, um antídoto, que encontra através da narradora, para se libertar. Ou melhor, uma tentativa de antídoto para dissolver aquele emaranhado de fios gelatinosos, aquelas vozes que falavam em silêncios ruidosos e que assustavam, quando entravam no quarto para dormir, a Ana, ou a Noémia, ou a Mariana, ou a Bárbara, ou, ou… Afinal aquela única mulher, ou todas as mulheres ao entrarem no quarto, qual campo de tortura! Por vezes de autotortura de quem nem sempre rompeu com uma amálgama de conceitos e de preconceitos. De açoites oriundos duma infância matriciada por valores, com certeza valores, mas valores que agora não a deixam, não as deixam, ver o mundo todo. Que não a libertam, as libertam, dos amontoados de destroços de terramotos diários e profundos. De uma casa, de casas, de paredes grossas. Opacas. De espaços em que os gritos se engolem a si próprios.
Prisão, afinal, era, é, muito mais do que estabelecimento prisional. É casa, também. É quarto. É sala. É cozinha. É refeição ressalgada com lágrimas escorridas. É muito o sofrimento dos filhos (das filhas) em noites de adivinhado alerta perante gritos no quarto ao lado.
Pois bem, este livro é tudo isto.
São mulheres sofridas. Direi mesmo, é uma mulher sofrida. Ou de outro modo, é um ser humano golpeado por outro ser humano.
Mas cada mulher pode também ser um homem. Cinco homens.
O género aqui não importa. O que importa é a violência bruta que está escondida em cada sorriso público hipócrita e em cada queimadura profunda privada. Venha ela donde vier. De homem ou de mulher.
Este livro é adivinhadamente duro.
É para ler. De um ou mais fôlegos. Mas é para ler.
Para ler também nas fugas encetadas que dele brotam. Nas corridas permanentes pela busca de colo. De carinho. De um peito. De quietude.
Mas é também para ler nos parágrafos do caos. Do abismo. Da quase morte. Dos ensaios de queda no poço negro do fim.
Com certeza que temos, todos, que agir. Que fazer mais. E isso já não é matéria para este livro. Isso já não é literatura. Isso são leis, regulamentos, isso é política.
Espero que este livro seja mais um princípio, um outro princípio, para que o fazer mais aconteça. Para que a sociedade aja.
Nunca conseguiremos o fim último. De banir, de erradicar da sociedade o crime. Esse crime.
O homem, a mulher, estão na sua base e quando assim é, a imperfeição acontece.
Mas atenção, esta consciência não nos deve imobilizar na ação. Pelo contrário deve impelir-nos, a todos, a uma atuação.
Pese embora estas minhas considerações finais e o facto de também a Rosa Monteiro dizer que este livro é um grito político, eu prefiro guardá-lo como uma obra literária que nos interpela através de cinco mulheres, de uma só mulher, de um ser humano, homem ou mulher. Que nos interpela sobre violências. Sobre solidão. Sobre vidas duras, muito duras que tantas vezes se passam ao nosso lado. Se passam por aqui. Por aí.
Parabéns Fátima Ferreira.»
Acácio Pinto | Texto publicado hoje a propósito do “Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres”
domingo, 20 de novembro de 2016
Escola da Quinta da Enterranha, Sátão, já abriu portas | É frequentada por 7 alunos
NOTÍCIA DÃO E DEMO
Depois de concluída a escola, Casa da Aprendizagem para os promotores, trabalho que decorreu durante o verão, como Dão e Demo foi dando conta, as aulas começaram no dia 3 de outubro, para 7 crianças, 2 do primeiro ciclo e 5 do jardim-de-infância.
A modalidade que está a ser desenvolvida nesta escola, pela comunidade educativa local, que vive na Quinta da Enterranha, no concelho de Sátão, é a do ensino doméstico, tendo estes alunos, por referência, o Agrupamento de Escolas de Sátão, onde efetuarão ao longo do seu percurso escolar as avaliações relativas à sua evolução educativa.
Como educadores, estas crianças, têm os seus pais que aplicam com os seus filhos, neste caso com os seus alunos, os métodos pedagógicos, na linha da “educação viva”, inspirados em Maria Montessori, Johann Pestalozzi, Waldorf e José Pacheco, da escola da Ponte, este último um projeto pedagógico que se desenvolve no concelho de Santo Tirso, mas que já tem seguidores em diversos locais do mundo.
De referir que os alunos da Casa da Aprendizagem da Quinta da Enterranha participaram com os seus educadores, na passada sexta-feira, na Festa de São Martinho, que teve lugar na Escola Secundária Frei Rosa Viterbo, em Sátão.
Depois de concluída a escola, Casa da Aprendizagem para os promotores, trabalho que decorreu durante o verão, como Dão e Demo foi dando conta, as aulas começaram no dia 3 de outubro, para 7 crianças, 2 do primeiro ciclo e 5 do jardim-de-infância.
A modalidade que está a ser desenvolvida nesta escola, pela comunidade educativa local, que vive na Quinta da Enterranha, no concelho de Sátão, é a do ensino doméstico, tendo estes alunos, por referência, o Agrupamento de Escolas de Sátão, onde efetuarão ao longo do seu percurso escolar as avaliações relativas à sua evolução educativa.
Como educadores, estas crianças, têm os seus pais que aplicam com os seus filhos, neste caso com os seus alunos, os métodos pedagógicos, na linha da “educação viva”, inspirados em Maria Montessori, Johann Pestalozzi, Waldorf e José Pacheco, da escola da Ponte, este último um projeto pedagógico que se desenvolve no concelho de Santo Tirso, mas que já tem seguidores em diversos locais do mundo.
De referir que os alunos da Casa da Aprendizagem da Quinta da Enterranha participaram com os seus educadores, na passada sexta-feira, na Festa de São Martinho, que teve lugar na Escola Secundária Frei Rosa Viterbo, em Sátão.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Fernando Ferreira como comendador da ordem de mérito
NOTÍCIA DÃO E DEMO
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, concedeu, esta quarta-feira, dia 9 de novembro, o título de comendador da ordem de mérito aos atletas portugueses medalhados este ano nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro.
Entre os condecorados está Fernando Ferreira, de Lamas, concelho de Sátão, que foi medalha de bronze na modalidade de boccia.
Para além de Fernando Ferreira foram condecorados mais seis atletas paralímpicos, Luís Gonçalves, Manuel Mendes, António Marques, Cristina Gonçalves, Abílio Valente e José Macedo e ainda Telma Monteiro medalha de bronze nos em judo, no Jogos Olímpicos 2016.
A cerimónia decorreu no antigo picadeiro do Museu dos Coches, em Lisboa.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, concedeu, esta quarta-feira, dia 9 de novembro, o título de comendador da ordem de mérito aos atletas portugueses medalhados este ano nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro.
Entre os condecorados está Fernando Ferreira, de Lamas, concelho de Sátão, que foi medalha de bronze na modalidade de boccia.
Para além de Fernando Ferreira foram condecorados mais seis atletas paralímpicos, Luís Gonçalves, Manuel Mendes, António Marques, Cristina Gonçalves, Abílio Valente e José Macedo e ainda Telma Monteiro medalha de bronze nos em judo, no Jogos Olímpicos 2016.
A cerimónia decorreu no antigo picadeiro do Museu dos Coches, em Lisboa.
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