terça-feira, 31 de maio de 2016

Carlos Paixão: ‘Um escritor que se tem vindo a construir com e em cada uma das suas obras’

Entrevista DÃO E DEMO
Tem 56 anos de idade, é natural de Carapito, concelho de Aguiar da Beira, mas foi no Sátão, onde leciona no Centro Escolar, que fixou residência há mais de duas décadas.
Professor do 1º Ciclo, diplomado pela Escola do Magistério Primário de Viseu em 1979, foi sempre um apaixonado pelo património, o que o levou a licenciar-se em História na Universidade de Coimbra e a frequentar o Curso de Património Histórico-Artístico, Natural e Etnográfico do Centro Nacional de Cultura.
E é esta sua dupla vertente, de professor em contacto permanente com as crianças do 1º Ciclo e de homem de cultura, que passa muito pelas páginas dos 14 livros que já leva publicados desde 1995, ano em que se iniciou nas lides de escritor.
É, pois, este homem, Carlos Afonso Paixão Lopes, mais conhecido por Carlos Paixão, na sua vertente de escritor, com livros seus no Plano Nacional de Leitura, que Dão e Demo entrevistou, na sequência da apresentação do seu 14º livro, “Olhares”, publicado pela Junta de Freguesia de Sátão.

Dão e Demo: Este último livro publicado, alusivo à freguesia de Sátão, sob o título “Freguesia de Sátão: Olhares”, é o 14º livro que publica como autor ou coautor. Em que contexto surgiu este livro e qual o seu conteúdo?
Carlos Paixão: Este livro, da minha autoria, surge em resposta a uma solicitação da Junta que, logo depois de ter tomado posse, me contactou no sentido de produzir um livro sobre os diferentes lugares desta freguesia de Sátão. Não prometi nada, mas comprometi-me a pensar no assunto. Passado algum tempo, apresentei-lhes um projeto, que foi aceite, e assim que tive disponibilidade, iniciei os trabalhos.
O seu conteúdo conduz-nos numa visita aos diferentes lugares da freguesia, acompanhados por alguns apontamentos históricos e patrimoniais. No fundo, é um olhar, com diferentes olhares, pois ouvi muitos naturais e residentes e todos eles contribuíram para a construção desta obra.

“O meu primeiro livro [Nos Caminhos do Pão] foi publicado em 1995”

DD: Mas se este é o 14º, quando foi publicado o primeiro e qual a sua temática?
CP: O meu primeiro livro foi publicado em 1995, numa edição da Câmara Municipal de Sátão, com o título “Nos Caminhos do Pão” e foi o resultado de um trabalho final que produzi, na freguesia de Rio de Moinhos, no âmbito do meu Curso de Património.

DD: Como surgiu, se é que é possível definir com exatidão, Carlos Paixão escritor?
CP: O Carlos Paixão escritor não tem, certamente, “certidão de nascimento”. O escritor tem-se vindo a construir com e em cada uma das suas obras. Naturalmente, quando escrevi o meu primeiro livro, estava longe de imaginar que iria fazer o segundo e era impossível prever que chegaria, aqui, ao décimo quarto. As críticas e os diferentes prémios literários que recebi, ao longo destes anos, foram um grande incentivo para continuar e acreditar, ainda mais, naquilo que fazia. Também foi relevante o facto de alguns livros fazerem parte das obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura. Efetivamente, só há um escritor Carlos Paixão porque há leitores para as suas obras.

DD: Quais são as suas principais inspirações? Ou se quiser, quais são as temáticas centrais que o movem quando escreve?
CP: Quem me lê descobre facilmente que há uma temática presente em todas as minhas obras. O nosso património, nas suas diferentes manifestações, oral, monumental, natural, artístico ou etnográfico, todo o nosso património cultural se manifesta na minha escrita. A inspiração centra-se nas nossas terras e nas nossas gentes, sejam adultos ou crianças, em todos aqueles e todas aquelas, lugares e pessoas, que contribuíram e continuam a contribuir para eu ser quem sou.

“as obras destinadas aos mais novos são também apreciadas por muitos adultos”

DD: Escreve para quem?
CP: Escrevo para quem me quer ler. Felizmente, tenho chegado a muitos públicos, mas tenho um alargado grupo de fiéis leitores, a quem aproveito para agradecer, que querem ter tudo o que eu tenho publicado. Também se tem tornado evidente que as obras destinadas aos mais novos são também apreciadas por muitos adultos.

DD: Uma vida dedicada ao ensino é também ela fonte de inspiração para as histórias que os livros vão imortalizando?
CP: Sem dúvida. Os muitos alunos e experiências que tenho vivido, nestes mais de 36 anos de serviço docente, são, efetivamente, uma fonte farta para o que escrevo e, daí, diversos dos meus livros terem a sua origem na escola, como são exemplo: “Lengalengas de Aprender a Ler”; “A Tartaruga Atropelada”; “À Descoberta do Primeiro Santo-São Teotónio”; “O Vento Bateu à Porta” e outros.

“não haverá razões para não continuarmos [com Carlos Pais] a trabalhar juntos”

DD: Nos livros publicados as coautorias têm sido com Carlos Pais e António José Paixão. Fale-nos de ambas e se são para continuar.
CP: O Tó-Zé Paixão é o meu irmão, o meu melhor amigo, aquele com quem partilhei e partilho grande parte da minha vida. Temos afinidades e cumplicidades que nos ligarão para sempre. Apoiámo-nos muito um no outro para começarmos a escrever. Depois, ele seguiu os trilhos da pintura e eu continuei pelas letras mas, a toda a hora, encontramos razões para nos encontrarmos.
O Carlos Pais foi uma descoberta que eu fiz, quando o desafiei a ilustrar o meu livro: “Lengalengas de Aprender a Ler”. A partir daí tem estado sempre presente nas minhas obras e a mostrar a qualidade do seu trabalho, seja na ilustração, seja nos arranjos gráficos ou na fotografia.
Havendo mais obras, não haverá razões para não continuarmos a trabalhar juntos.

“Não me falta material para outras publicações”

DD: Desvende aos leitores Dão e Demo o próximo livro que vai ser dado à estampa. Para quando nas livrarias?
CP: Já seria demais! No espaço de um mês, acabei por publicar dois livros! Agora é tempo de ouvir as opiniões, sentir os leitores e fazer uma pausa. Não me falta material para outras publicações, no entanto, a minha profissão é ser professor. Uma profissão cada vez mais exigente e que, de há uns anos para cá, infelizmente, não nos deixa muito tempo para criarmos.
Quando e como será o décimo quinto, nem eu sei!


PERGUNTAS RÁPIDAS A CARLOS PAIXÃO
Qual o seu autor preferido?
Não tenho um autor preferido. Todavia, há vários autores que eu leio mais: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, José Saramago, Gabriel Garcia Marquez, José Luís Peixoto, Mia Couto…
Qual o livro que mais o marcou?
“Crónica de Uma Morte Anunciada” de Gabriel Garcia Marquez.
Qual o livro que tem, neste momento, na mesinha de cabeceira?
Na mesinha de cabeceira está: “O Grande Livro dos Santos”; junto do sofá da cozinha estão: “O Meu Irmão” de Afonso Reis Cabral e : “ Puxar a Brasa à Nossa Sardinha” de Andreia Vale. Normalmente, tenho disponíveis dois ou três livros para ler. Pego neles de acordo com a disposição de momento.
Onde gosta mais de ler?
Todos os lugares me servem para ler, aliás, já há quem diga que eu tenho de estar sempre a ler. Leio tudo e em todo o lado. No entanto, um lugar privilegiado é dentro do carro, no cimo de um monte, com largo horizonte, ou junto de um local em que se ouça o cantarolar da água.
Qual o primeiro livro que leu e com que idade?

Provavelmente o livro de leitura da primeira classe, não me lembro. Sei que o meu professor primário me deu um livro, o meu primeiro livro, que eu guardo em lugar de destaque na minha biblioteca, intitulado: “O Jardim”, no Natal de 1968.

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