sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

[opinião] Os cursos superiores enjeitados!

Estes tempos que vivemos no setor da educação têm sido tempos duros, de uma forte deriva ideológica neoliberal, de um claro desinvestimento na escola pública, na ciência e no ensino superior.
Nuno Crato, cedo, se revelou um “escuteiro” serôdio de uma educação elitista que pé ante pé tem vindo a implementar em todo o sistema educativo, tendo-lhe causado uma instabilidade geral, do básico ao superior, quer na vertente pedagógica quer na vertente dos recursos humanos.
O mais recente caso, um verdadeiro paradoxo, tem a ver com os cursos superiores de curta duração, aprovados recentemente em conselho de ministros, que já todos enjeitam.
Falamos, concretamente, dos designados cursos técnicos superiores profissionais (CTSP) com duração de dois anos a serem ministrados nos institutos superiores politécnicos.
E é aqui que entra o paradoxo. É que, logo no dia da aprovação pelo conselho de ministros do decreto que aprovou estes cursos, o conselho coordenador dos institutos superiores politécnicos (CCISP), em comunicado, disse que não foram tidos nem achados neste processo, que os seus contributos foram atirados para o caixote do lixo e que, portanto, face ao modelo aprovado, não estavam disponíveis para lecionar os CTSP.
E dizia mais o comunicado do CCISP, que manifestava o seu “repúdio pelo modo como tem sido conduzido o processo de construção de políticas públicas de ensino superior, o qual tem ignorado sistematicamente a posição e as propostas do CCISP, parceiro incontornável, tal como está consagrado na lei”.
Face a tudo isto temos, de facto, que estar muito preocupados. É que ainda há um mês atrás Nuno Crato tinha posto em causa a formação de professores nos politécnicos, agora corta nos bolseiros, já antes tinha suborçamentado o ensino superior, atitudes que se sintonizam numa sanha persecutória contra os politécnicos, as universidades e, afinal, contra a educação e todo o sistema científico.
E não se pense que temos alguma oposição de princípio a que existam cursos profissionalizantes de curta duração, porque não temos. O que temos são muitas reservas quanto ao caminho escolhido. É que estes CTSP são, na prática, uma redundância dos atuais cursos de especialização tecnológica (CET), que atualmente são lecionados em escolas profissionais e em institutos politécnicos.
Quer isto dizer que se não tivermos sobre esta matéria uma visão global, tudo pode ficar em causa: a racionalidade do sistema de formação profissional; a sua adequação ao mundo do trabalho; e o prosseguimento de estudos.
Ficamos com uma tal teia de graus e de cursos, sobrepostos, que ninguém perceberá como se enquadram e como se encaixam uns nos outros: nem os alunos, nem o mercado de trabalho.

Finalizamos com um desejo e um apelo. O desejo é que estes cursos não sejam, tão só, uma via para inflacionar o número de diplomados com o superior e o apelo é para que o governo, ainda está a tempo, abra um diálogo sério com os parceiros envolvidos nesta problemática, com destaque para os politécnicos e para as empresas, e corrija este modelo.
Acácio Pinto

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