sexta-feira, 30 de março de 2012

[opinião] Nuno Crato está imparável! Exames no 4º ano para obter “dados fiáveis sobre a aprendizagem”?


Nuno Crato está, de facto, imparável! Basta olhar para a versão final da estrutura da revisão curricular para inferir tal. Nem perante os inúmeros alertas ele consegue ceder à sua tentação de se ajoelhar perante o absolutismo do saber e, dentro deste, de alguns saberes que ele elegeu como a luz de todas as luzes para revolucionar a educação, como se de uma revolução ela estivesse necessitada.
Porém, as coisas, não lhe estão a sair bem a vários níveis e a sua “implosão”, mais cedo ou mais tarde, implodirá com as políticas do seu criador.
Na versão final, que agora nos traz, as incoerências são muitas e nem perante as enormes críticas de que foi alvo, ele acabou por recuar. As inúmeras e consistentes críticas ao fim da disciplina de Formação Cívica autónoma não foram suficientes para ele a recuperar com a dignidade que merecia. Remeteu-a para o “purgatório” de uma autonomia com que teima em encher a boca. E o quão fundamental, ela, é no nosso tempo!
Quanto às provas finais [exames, senhor Ministro!] para o 4º ano isso deixa-nos boquiabertos. É a recuperação de um mito que ainda existe na mente muitos mas que não augura nada de bom para o sistema. E ainda por cima com peso específico na avaliação, como se “os dados fiáveis sobre aprendizagem” no primeiro ciclo estejam dependentes desses exames.
A dispersão curricular que ele queria combater, aumenta; realizar atividade experimental com a turma toda, só no papel, que nem na teoria; falar em coadjuvação no primeiro ciclo sem especificar nem quantificar nada, é só invólucro sem conteúdo.
Ou seja, Nuno Crato, utilizando um tom simpático e sorridente, muito atencioso, quer mesmo fazer o que parece: desmantelar um modelo que foi construído ao longo de mais de uma década depois de um longo e intenso debate que envolveu todos os profissionais, pais, associações científicas e pedagógicas e quer regressar aos anos setenta e oitenta do século passado.
Sim, é um regresso o que ele pretende. Um regresso a um paradigma dirigista da educação e ao conceito do “magister dixit”. É o retorno a um saber sustentado exclusivamente na memória, a uma escola que desvaloriza a inclusão, que não tem em conta o saber fazer, o recuo a uma escola que dê foros de preeminência a certas disciplinas em detrimento de uma visão globalizante e importante de todos os saberes. A especialização, que não a importância, deverá ficar para muito mais tarde na vida dos alunos.
Entendo, pois, que o perigo do regresso a uma escola elitista é real e que a escola pública, tal qual a concebemos e conhecemos nos últimos anos, está ameaçada.
Nuno Crato contará, pois, com a nossa oposição nesta sua caminhada!
(In: Jornal do Douro de 2012.03.29)

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