segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Basílio Horta: "Défice não justifica novas medidas de austeridade"

Entrevista de Basílio Horta à ETV, o canal 200 da Zon e da Vodafone, conduzida por Francisco Teixeira, e aqui reproduzida a partir do Económico:
«Basílio Horta, ex-presidente da AICEP e actual deputado socialista, durante a entrevista no ETV.
Basílio Horta defende que PS não pode voltar a apoiar novas subidas de impostos.
Fundou o CDS e, 37 anos depois, é, como independente, vice-presidente da bancada parlamentar do PS que coordena as questões económicas. Basílio Horta continua a ser "um democrata-cristão", mas o discurso está 100% alinhado com o PS. Diz que o legado de Sócrates "tem costas largas", que o défice de 8,3% até Junho não justifica novas medidas de austeridade e que o PS não pode apoiar mais nenhum aumento de impostos. A Cavaco não deixa qualquer elogio.
A 30 de Junho o défice era de 8,3%. Tendo em conta que os secretários de Estado deste Governo tomaram posse a 28 de Junho, quem responde politicamente por este valor?
Ainda bem que faz essa pergunta, temos de ver os dados com objectividade, sem alinharmos nesta campanha que o Governo está a lançar.
Os números são uma campanha?
Não, falo do que se está a tentar fazer: todas as medidas que estão a ser tomadas nunca são da responsabilidade de quem as toma, são da responsabilidade do anterior Governo. Isso pode ser eficaz, mas não é sério.
Quem deve responder pelo défice de 8,3%?
No primeiro semestre de 2011, o défice era de 6,995 mil milhões de euros. No ano passado, no primeiro semestre, foi de 8,728 mil milhões de euros. No primeiro trimestre deste ano, face ao que aconteceu no segundo, houve uma diminuição do défice de 1.200 milhões de euros. Depois de Março o Governo ficou praticamente em gestão. Sem o défice de 1,6 mil milhões da Madeira, se calhar o défice seria de 6 e tal por cento...
Ainda acredita que cumpriremos a meta de 5,9% em 2011?
Não dramatizemos, basta que no segundo semestre façamos uma redução idêntica à que foi feita no primeiro semestre [em comparação com o primeiro semestre de 2010 o défice foi reduzido de 10,4% para 8,3%].
O Governo diz que um défice de 8,3% no final de Junho justifica novas medidas de austeridade. Concorda?
Claro que não justifica! Politicamente, só se justifica se o Governo quiser fazer toda a austeridade até 2012 e depois ter dois anos - 2013 e 2014 - mais tranquilos... mas isso é à custa dos portugueses.
Vi-o na campanha eleitoral, num comício em Leiria, a defender o legado de José Sócrates. Este valor de défice não é, também, o resultado desse legado?
O legado socialista tem as costas muito largas. Antes das eleições toda a responsabilidade da crise era interna, o Presidente dizia que a questão era interna. Agora a crise é internacional e até se faz depender da Grécia a existência de um segundo memorando. O Presidente até dizia que havia limites para os sacrifícios, e o Governo dizia que a redução da taxa social única era uma varinha mágica.
Onde acaba a responsabilidade do anterior Governo e começa a responsabilidade do actual?
A responsabilidade do anterior Governo terminou, foi julgado nas eleições. Perdeu!
Sente necessidade de fazer algum ‘mea culpa'?
Algum Governo faz tudo bem feito? Claro que não...
O que falhou?
Podia-se ter ido mais longe na reforma do Estado, o PRACE não foi suficientemente longe. Diz-se que o anterior Governo gastou demais, em 2009.
Hoje tínhamos sector automóvel? Havia indústria imobiliária? E o têxtil e o calçado? Existiam? Não.
Há uma versão do copo meio vazio. Apostou-se demasiado em obras públicas questionáveis e muitas empresas públicas estão, por isso, falidas. Sempre preferi apostar mais no cérebro do que no cimento.
Isso aconteceu com Sócrates?
Sim.
O que pode então justificar novas medidas de austeridade?
Já não há margem para aumentar mais impostos!
Com mais de 80% da despesa concentrada em três ministérios, (Saúde, Educação e Segurança Social), como se corta, sem despedimentos ou sem afectar o Estado social?
É possível cortar a sério sem despedimentos. Para isso é que existe a mobilidade.
O PS deve afastar-se das bolsas de contestação que, certamente, ganharão força nos próximos meses?
Com certeza. O PS é um partido de poder e tem pela frente um trabalho muito difícil. Perdeu as eleições, existe um Governo de maioria, tem de ser persistente e de trabalhar. Tem de se afirmar como alternativa sem perder de vista o interesse nacional.
O PS não apoiará nenhuma alteração ao memorando da ‘troika'?
O PS não pode nem deve apoiar sacrifícios que vão além da ‘troika'.
António José Seguro tem tudo para ser primeiro-ministro?
O PS acha que sim, por isso o elegeu.
E Basílio Horta, o que pensa?
Sou leal ao secretário-geral do PS, embora independente. No dia em que não for, tenho de sair. Já agora quero dizer que tenho uma grande estima por Francisco Assis.
É um democrata-cristão ou um socialista-católico?
Um democrata-cristão, com certeza! E poderia estar ao lado do meu querido amigo António Guterres.»

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