quinta-feira, 10 de março de 2011

(Opinião) Cavaco: agitador e divisionista

Face ao teor do discurso que o Presidente da República fez ontem na Assembleia, na tomada de posse, o que quero desde já dizer é que me enganei quando disse ao Diário de Viseu, antes da sua intervenção: “o que eu acho é que o Presidente da República, neste segundo mandato, vai privilegiar a estabilidade política e institucional, em detrimento de quaisquer tipos de derivas que lancem o país numa crise política. Já aquando da discussão que se travou na sociedade portuguesa, no final de 2010, no âmbito da aprovação do Orçamento de Estado para este ano, foi esse o seu posicionamento, o da estabilidade. E se atendermos também ao seu perfil e à sua história de vida política a conclusão não pode ser outra. Creio, pois, que será sempre esse o seu norte, decidir segundo os mais elevados interesses nacionais.”
E eu ainda disse mais. Disse que “o Presidente da República sempre terá no seu horizonte a cooperação estratégica, como ele tem afirmado ao longo do tempo, e nunca cederá a estratégicas cooperações. Uma coisa é o direito de manifestação, outra é o interesse nacional e a legitimidade das instituições, neste caso, do Governo.”
Afinal, enganei-me. Enganei-me rotundamente.
Aquela figura institucional, a do Presidente da República, que nos habituámos, todos, a respeitar e a ver como referencial de estabilidade, como agregador de vontades e de energias de todos os portugueses, acabou.
Cavaco Silva de uma assentada terminou com a linha de intervenção de Presidentes como Jorge Sampaio ou Mário Soares, de grande honestidade intelectual, de grande respeito institucional, e igualmente, transformou uma tomada de posse, sempre um acto abrangente e de grande carga protocolar e institucional, numa descrição do momento actual que se vive no país, mas, despudoradamente, sem rigor e sem uma palavra que fosse para as causas da crise internacional que afecta, igualmente, a Europa e mundo, e que nasceu nas negociatas cegas de banqueiros e de financeiros com especiais apetências por negócios em paraísos fiscais, de que também tivemos ecos no nosso país.
[Quem se não lembra?]
Então agora temos um Presidente que incita os portugueses a irem para a rua? Que apela a sobressaltos cívicos? Um Presidente que diz que perdemos uma década e nada diz sobre o investimento em ciência e tecnologia, sobre os cuidados continuados, sobre a agenda energética das renováveis e sobre a simplificação administrativa? Sobre a requalificação do parque escolar e sobre a construção de novos hospitais? Um Presidente que condena os políticos na casa da democracia, ele, que é o político que mais anos leva de política activa?
Então agora temos um Presidente que é câmara de eco de todos os descontentamentos e não apresenta uma solução que seja? Que não aponta um caminho que seja? Que é o provedor de metade dos portugueses? Que se assume como Presidente de uma facção? Como um sectário?
Espero e desejo, sinceramente, que Cavaco Silva corrija o tiro. Se reencontre com o bem senso e que deixe de lado rancores de campanhas eleitorais. Que se assuma como um verdadeiro estadista. Que seja um Presidente de todos os portugueses.
(Foto: Presidência da República)

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